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Como responder aos evangélicos que querem mandar os gays para o inferno

sexta-feira, fevereiro 12, 2016Roberth Moura




Depois que eu saí do armário, parece que todos os olhos da comunidade gospel se voltaram para mim. Nas redes sociais, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê; não importava o lugar, o meu pecado sempre era mais relevante que eu mesmo. Quem acompanha meu blog sabe que eu cresci dentro da Assembleia de Deus, me batizei aos 12 anos, fiz parte do coral, do grupo de teatro, frequentava quase todos os trabalhos, realizava evangelismo e tudo mais. Eu era o combo completo, altamente engajado nos trabalhos que minha comunidade evangélica desenvolvia. Até eu sair espontaneamente, a fim de não ser excluído.

Eu esperei um momento estratégico para me libertar. O plano era já me apresentar como gay para as pessoas da minha nova cidade (mudei de Minas para o Espírito Santo em 2015), e, quando tomasse coragem e sentisse contexto, ir revelando, aos poucos, para os meus outros conhecidos. Já tem uns seis meses que eu comecei a contar, primeiro para a família, depois para os amigos, colegas e assim sucessivamente, e até hoje eu estou contando. As reações são as mais diversas: “eu sempre soube”, “você ainda não encontrou a mulher certa”, “eu te amo, mas não te aceito”, etc.. Contudo, a frase mais comum de todas é “Você sabe que sendo isso, você vai para o inferno, né?”.  E é aí que o sangue ferve. 

Não vou discutir o fato de as igrejas tradicionais não aceitarem homossexuais “em atividade” como membros. Para fazer parte de uma organização, os indivíduos devem cumprir determinados requisitos. É assim tanto na Academia Brasileira de Letras quanto no Clube do Bolinha. O que eu pretendo discutir são argumentos bíblicos não aplicáveis ao contexto que estamos inseridos que meus ouvidos espumaram de tanto ouvir. Se alguém teve uma experiência similar, por favor, compartilhe nos comentários o argumento que foi usado contra você. Comigo foram usados basicamente três: (1) o episódio de Sodoma e Gomorra, (2) o terrível Levíticos e (3) a abominação paulina. Vou falar sucitamente de cada um e tentar contra-argumentar dentro da própria Bíblia (porque se vai discutir com alguém que tem a fé cega, não adianta trazer outras referências, pois é “tudo invenção de Satanás”. Deve-se buscar dialogar dentro do seu próprio sistema de crenças).

O episódio de Sodoma e Gomorra

O capítulo 19 do livro de Gênesis relata a visita de dois anjos à casa de Ló, sobrinho de Abraão. A história diz que todos os varões da cidade se ajuntaram ao redor da casa de Ló e pediram-no para trazer para fora os dois homens que estavam visitando-o para fossem conhecidos. Ló, então, ofereceu suas filhas, para que elas fossem conhecidas ao invés das suas visitas. Eles não aceitaram, uma vez que, conhecer estrangeiros era muito mais emocionante e divertido. Então, tentaram arrombar a porta de Ló, e os anjos, vendo aquilo, cegaram todos os homens da cidade. Um pouco depois, os anjos instruíram Ló e sua família a deixar a cidade, pois a sua missão era destruí-la.
O argumento usado pelos cristãos tradicionais é que a cidade fora destruída porque os homens de Sodoma faziam sexo anal entre si e queriam, também, abusar dos anjos. Essa falsa ideia ficou tão impregnada que por muito tempo a penetração anal foi chamada de sodomia.
Chamo esta ideia de falsa porque em nenhuma parte do livro de Gênesis está explicito o motivo das cidades terem sido destruídas.
Pois nós vamos destruir este lugar, porque o seu clamor tem engrossado diante da face do Senhor, e o Senhor nos enviou a destruí-lo (Gn. 9. 13)

Para que as pessoas acreditem que o sexo anal foi a causa da destruição, eu só penso que eles devem funcionar com a seguinte lógica: um evento x aconteceu hoje a noite; logo depois acontece um evento y. Se y, nunca ocorreu antes, logo,  x provocou y.  
Contra-argumento: Gênesis não fala o motivo da destruição, deixando a bel prazer a interpretação de quem lê. Só diz que eram maus e grandes pecadores. PORÉM, em Ezequiel está a resposta para este enigma. E o que provocou a destruição das cidades não foi o sexo anal, conforme aponta a escritura sagrada:
Eis que esta foi a maldade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca esforçou a mão do pobre e do necessitado. E se ensoberbeceram e fizeram abominação diante de mim; pelo que as tirei dali, vendo eu isso (Ez. 16. 49-50).

Logo, se alguém vier lhe dizer que Sodoma foi destruída por causa da homossexualidade, você vai poder provar que não.

O terrível Levíticos

O famoso versículo de Levíticos me é citado com muito mais frequência que o episódio de Sodoma. Mas rebatê-lo é mais fácil, porque o livro condena com o mesmo rigor coisas do nosso dia a dia que todo cristão faz. Isso não significa dizer que estaremos anulando a “pecaminosidade” da homossexualidade, mas dizendo à pessoa acusadora que a lei usada por ela para nos julgar, a condena muito mais que a nós. O livro foi o código penal escrito para os hebreus daquele tempo. Querer aplicá-lo nos dias de hoje significa rasgar a Declaração dos Direitos Humanos sem piedade. 

Em relação aos homossexuais, Levíticos diz que é abominação deitar-se com outro homem como se este fosse mulher. Se alguém fizesse isto, sua alma seria extirpada do seu povo (Lv. 18. 22).


Contra-argumento: Se alguém lhe apontar Levíticos dizendo que Deus abomina ao gays, aponte-lhe as outras coisas que também são abomináveis, como fazer o pezinho do cabelo (17. 27), comer uma gordura de boi naquele churrasquinho (7. 23), comer carne de porco (11. 7), comer lula, polvo, siri e caranguejo (11. 10), usar roupa que misture dois tecidos (19. 19), etc.. Isso só no livro de Levíticos. Existem coisas ainda mais absurdas ainda em outras partes do Velho Testamento. Por exemplo, se o filho de fulano for muito rebelde, e, mesmo sendo castigado pelos pais não tomar jeito, então ele deve apedrejado por todos os homens da cidade até que morra (Dt. 21. 18-21). Ou se a mulher for “achada” fazendo sexo e não gritar suficientemente alto, também deve ser apedrejada, junto com o macho alfa (Dt. 22, 23-24). Ah, “Deus” também mandava apedrejar a mulher que se não se casasse virgem (Dt. 22, 20-21). O gostosão do homem, por outro lado, poderia fazer sexo com quantas mulheres quisesse até se cansar e só depois se casar, que estava tudo de boas.  

Abominação Paulina

Outro argumento que costumo usar quando alguém joga Levíticos na minha cara, é que o Velho Testamento foi feito para os judeus. Os cristãos devem seguir apenas o Novo Testamento, pois é neste que estão contidos os mandamentos da nova aliança de Deus com os homens. Aí, a pessoa te traz um versículo das cartas de Paulo (porque a missão dele nesta terra é te condenar ao lábaro de fogo ardente a qualquer custo). Paulo diz que os efeminados e os sodomitas não herdarão o reino dos céus (1 Cr. 6. 10). 


Contra-argumento: Particularmente, eu acredito que todos os cristãos deveriam seguir APENAS os mandamentos de Jesus. As cartas de Paulo aos Romanos, era para o povo de Roma, daquela época. Era aquilo que eles precisavam ouvir, não necessariamente nós. Assim como todas as outras cartas que ele escreve. Não são mandamentos universais.  Mas se a pessoa acreditar que é, diga-a que se ela cumprir tudo da forma como está escrito, você também vai cumprir (use a mesma estratégia usada no anterior, provando para a pessoa que, dentro do sistema de crenças que ela possui, é tão pecadora quanto você e que por isto não pode te julgar). O mesmo Paulo diz que é pecado mulher usar trança no cabelo ou algum ouro como enfeite (1 Tm. 2. 9), que é permitido ter escravos e que eles devem obedecer calados (Cl. 3. 22), que é pecado a mulher se pronunciar sobre algo na igreja, devendo perguntar as coisas seu marido em casa (1 Co. 14. 34). Nesta perspectiva machista de que é indecente que as mulheres falem na igreja, as pastora, missionárias e pregadoras seriam as mais pecadoras das igrejas. Há quem busque explicar as raízes deste pensamento na conversão de mulheres pagãs gregas, que à época falavam alto e atrapalhavam o culto, já que assim estavam acostumadas em seus cultos pagãos. Mas o interessante, nestes casos, é que o afeminado ninguém busca contextualizar, buscar uma raiz histórica. Só as partes que lhes são convenientes. Enfim, um comportamento típico da raça humana, na política, nas tarefas do dia a dia, nos relacionamentos amorosos e também na religião. 

É claro que a pessoa vai dizer que a SUA interpretação está errada, que a dela que é a certa, e obviamente todos que estão do nosso lado vão perder o debate, e ao invés de sermos convertidos, é muito mais provável que eles nos deixem com ainda mais raiva. Isso só prova que a fé cega, sem reflexão, não produz frutos.  Mas tente um xeque-mate, dizendo Jesus não condenou em momento algum a homossexualidade, ao contrário, acolheu e amou a todos que a sociedade excluía. Diga ao fulano para ser mais imitador de Jesus e menos imitador de homens e para buscar amar o próximo como se fosse ele próprio que ele ganha muito mais. Se nem isso adiantar e a pessoa continuar falando, não seja irônico e nem levante o tom de voz, porque quem faz isso já perde a discussão. Só seja simpático, já que a grade maioria dos debates que existem as duas pessoas expõem suas opiniões, apenas, mas ninguém acata o que o outro diz. Por isto, há grande dificuldade de ser empático, mas a gente morre tentando. 

Quando um cristão vem tentar me convencer que sou pecador por ser gay e que preciso mudar, eu o compreendo. Boa parte deles querem o meu bem, querem me ver feliz (dentro da concepção do que eles entendem por felicidade). Eu só tento mostrá-los que eu sou feliz assim, que não tenho culpa por ter nascido gay ou preto ou feio. MAS já que nasci com características socialmente desvalorizadas, ‘bora ser feliz assim. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. 

A sociedade, de forma geral, aceita muito mais o ódio entre os homens que o amor. Um homem que mata aquele que deitou com sua mulher é muito mais compreendido que um homem que quer dividir a vida com outro, que quer amar, viver, ser feliz. Vamos buscar a nossa paz de espírito, conectando nosso interior ao à coisas boas, e se preocupar menos com a maneira que os outros direcionam o seu amor. Afinal, contra o amor, não há lei. 


Mas o fruto do Espírito é: amor, felicidade, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, esperança. Contra essas coisas não há lei (Gl. 5. 22-23).

Indicações:

Homossexualidade:genética ou meio? Traz alguns dados relevantes acerca da homossexualidade e do processo como ela se dá. Aborda tanto a questão fisiológica quanto a social.

Filme Orações para Bobby. Conta a história de uma mãe cristã que acreditava que a homossexualidade de seu filho era doença e pecado. Após trágicos acontecimentos ela descobre o quanto estava equivocada e busca reparar os erros que cometeu. Muito emocionante.

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3 comentários

  1. Como entender e ajudar o homossexual? VEJA COMO SE LIBERTAR DESSE PECADO E ORIENTAR O HOMOSSEXUAL POIS ELE PRECISA DE AJUDA:

    http://biblia.com.br/perguntas-biblicas/homossexualismo/como-entender-e-ajudar-o-homossexualcd




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  2. Lindo esse texto!! Tive uma história parecida quando me assumi bi, minha família não aceitou muito bem na época, mas hoje estão melhores. O fato de ter sido criada em igreja evangélica me ajudou muito a rebater comentários "cristãos" sobre mim. "Você vai pro inferno, deus criou o homem e a mulher" , odeio quando falam isso querendo impor e não conversar. A religião nessas pessoas funciona como um cabresto. É assustador muitas vezes. A biblia tem muitas incoerências, mas também partes interessantes. Acho que é só saber ler ou ler mais ao invés de repetir o discurso do pastor. Enfim, obrigada pelo texto. :**

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    Respostas
    1. Eu penso como você. Se a gente utilizar a bíblia como um guia para nossa evolução e autoconhecimento e não como uma jurisdição para acusar o próximo ela se torna o livro mais belo que há.

      Fique à vontade para navegar pelas páginas do blog. Se ler postagens antigas, não se assuste com algumas opiniões. Boa parte delas sofreu alteração, rs.

      Abraços!

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