Contos

Diga que me ama e eu viverei disto pelo resto de minha vida!

sábado, dezembro 05, 2015Roberth Moura


O casal está deitado na grama do parque, de mãos dadas, observando o entardecer, que caía lentamente, como uma pluma sustentada por uma suave brisa quente. Estão há quase dez minutos sem dizer nada, apenas sentindo o momento e contemplando o devir do espaço infinito. Quando, de repente, é quebrado o silêncio:

– Gugu, eu te amo.
Silêncio mortal.
– Escutou o que eu falei, amor?
– O quê?
– Eu te amo.
– Ok.
– Como assim “Ok”, Gustavo? Você não tem nada pra me dizer? Não está se esquecendo de nada não?
– Haveria algo a ser dito?
– Mas é claro. De acordo com a regra imperativa dos relacionamentos, quando uma pessoa expõe seus sentimentos mais íntimos, a outra deve, obrigatoriamente, expor os dela também.
            – Onde é que você fica sabendo dessas “regras do amor”?
            – Aprendi por aí, sei lá... na vida. No mesmo lugar onde a gente aprende que só é elegante dar a partir do terceiro encontro. Ou, que uma vez conquistado espaço no corpo do parceiro, recuar é deslealdade. Ou que visualizar mensagem e não responder em no máximo 15 minutos é sinal de que ele está te dando o fora, mas está com pena de usar todas as letras para dizer, só te apontando indícios. Essas coisas.
            – Rô, o quê que a gente combinou no início do nosso namoro? Nós somos seres livres, pessoas diferenciadas. Um casal contra-normativo. Livre de preconceitos e estereótipos sociais.
            – Fale por você. Eu quero casar de branco, ao som de uma orquestra de 50 instrumentos, com arranjos de girassóis enormes e lírios do vale do Nilo, dar uma festa para 400 convidados e sambar na cara das inimigas que acharam que eu nunca iria arranjar ninguém.
Gustavo, no mais absoluto silêncio. Cara de paisagem.
            –  Ai, amor... Faz meu dia feliz e diga que me ama! Vamos lá, começar do zero. (olhando bem nos olhos dele). Gugu, eu te amo!

Após uma rápida, leve e quase imperceptível hesitação, ele responde:
            – Eu também.
            – Você acha que me engana, mas eu percebi uma profunda hesitação no seu olhar, no seu tom de voz e no tremular dos seus dedos. Além do mais, “eu também” não significa nada. Você também o quê? Você também se ama? Isso não é resposta que se dê, frente a uma declaração tão grandiosa e profunda quanto esta.
            – Ai, que tortura! Você quer o quê de mim?
            – Que você diga que me ama. Oh, Gugu... Diga que me ama e eu viverei disto pelo resto de minha vida!
            –  Olha... Eu não quero magoar você, mas eu acho que você está indo rápido demais com as coisas. Eu gosto de você. Gosto de verdade. Está bom assim?
Silêncio.
            – Eu gosto muito de você. Mas AMOR, pra mim, é outro departamento.
Silêncio.
            – Fala alguma coisa, caramba!
            – Tá certo. Eu rasgo meu peito. Eu deposito nas suas mãos o meu coração. Eu me entrego por completo a você, e aí você diz que gosta de mim. É isso mesmo, produção? Isso aqui é o quê? Uma pegadinha do Faustão? Um telegrama do Gugu? Um teste do João Kleber? Ou é só a vida me dando mais um tapa na cara, como ela gosta sempre de fazer, só pra não perder o costume?
            – Tente entender meu lado também. Me diz, como é possível amar alguém em menos de um mês de relacionamento? Não tem lógica uma coisa dessas, pessoa!
            – O amor é ilógico! Irracional! Chama que arde sem se ver! Se tivesse lógica, não se chamaria amor, mas sim engenharia mecânica. O amor é uma como um pequeno fio de água fresca que irrompe na sequidão do deserto de nossos corações e vai ganhando cada dia mais força, tornando-se caudaloso e inundando nossa alma até transbordar por todos os poros e contagiar todo nosso mundo-ao-derredor.
            – Pois é... Só pode que essa aguinha aí, não fluiu no deserto da minha alma ainda. Infelizmente.
Cara de engolindo o choro.
            – Adeus, Gustavo Bracho Tedesco. E não volte a me procurar nunca mais, seu animal asqueroso, abjeto, infame e sem amor no coração. Olha o que você merece de mim:
            Cospe no chão aquele catarro que fez questão de tirar do fundo da essência humana, olha com cara de desprezo para seu ex-futuro-marido, vira o rosto e sai poderosa, se sentindo a própria rainha do Tijuco.  Gustavo, aquele que não ama, suspira e diz pra si mesmo:
            – Adeus, Roberto. Foi infinito enquanto durou.

            Pega a revista na bolsa e vai folhear a sua G-magazine vintage de 1999.


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1 comentários

  1. Excelente!!! Chorando de rir, mas espero que você já tenha se recuperado desse episódio, continue compartilhando!

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