Filosofias e Reflexões

Por que ninguém quer namorar comigo?

terça-feira, novembro 24, 2015Roberth Moura


Após levar um pé na bunda através de mensagens e entrar no poço da desilusão por alguns dias, resolvi escrever sobre esta experiência, para tentar realizar uma catarse e elaborar o luto do meu coração (ouvindo Maysa – Franqueza e Ouça – e Dalva de Oliveira – Não, nunca mais e Que será).

Vou contar resumidamente o que aconteceu. Conheci um fulano em um aplicativo de encontros, nós conversamos bastante, trocamos telefones, conversamos mais ainda, super nos identificamos. Uma maravilha. Vamos chamá-lo de Iago, para facilitar a leitura.

Iago e eu, depois de super nos identificarmos, marcamos um encontro romântico, ao pôr-do-sol no parque da cidade. Eu, 25 anos, Iago, 21. Nos conhecemos pessoalmente, conversamos mais, descobrimos similitudes e dessemelhanças, nos beijamos apaixonadamente, e nos despedimos com a promessa de nos reencontrarmos o mais breve possível. Após enviar várias mensagens para o dito cujo e ser prontamente ignorado (eu comecei a desconfiar que ele não queria nada a partir daí, mas entre ser ignorado e ser rejeitado, eu prefiro a segunda opção, pois ela não dá margem para fantasias como “o celular dele foi roubado” ou “ ele está muito ocupado agora e vai me responder um dia, quando tiver tempo livre para a insignificância da minha pessoa”), eu dei uma cartada final, marcando encontro para aquele dia. Foi aí que eu recebi o maior pé na bunda de toda a história da minha vida.


Iago disse que não tinha me curtido tanto quanto eu havia o curtido, e que apesar de eu ser uma pessoa incrível, nosso relacionamento não poderia dar certo porque existiam muitas diferenças entre nós (aí, eu fico imaginando o que ele me diria se eu não fosse uma pessoa incrível). Falsianemente me desejou boa sorte, me bloqueando em seguida do seu whatsapp, para eu nunca mais ousar incomodá-lo em sua vidinha perfeita.


Então, depois de ser quase abandonado no altar, eu fiquei altamente reflexivo, pensando “Por que, meu Deus, por quê?”. “Por que uma pessoa como eu, divertida, culta, inteligente, charmosa, estudada, viajada, criativa, mente aberta não consegue arrumar alguém para dividir a vida?” (obs: modéstia é uma coisa que eu evito usar quando estou tentando sair da depressão). “Por que ninguém quer namorar comigo, oh pai celestial? Eu vejo tanta gente sem graça, inerudita, ignorante, sem charme, sem estudo, mente fechada, amando e sendo amada, e eu aqui, avulso, lançado tal qual uma flor de cerejeira ao vento noroeste... O que que eu tenho de errado?”.

Esta é a pergunta que vale um milhão de dólares.



 Não conseguindo resolver meus problemas pessoais de ordem emocional sozinho, fui pedir ajuda aos universitários. E, após mergulhar em uma miríade de possibilidades, discutindo com várias pessoas próximas, graduadas e altamente gabaritadas no quesito amor (algumas nem tanto, estando até em situação pior do que a minha, mas isso não vem ao caso porque quanto pior é a vida de uma pessoa naquele aspecto, mais ricos são os conselhos que ela dá), chegamos à conclusão que o problema não estava no fato de as pessoas não quererem namorar comigo. Eu é que escolhia demais as pessoas que eu queria que namorassem comigo. Confuso? Vou tentar explicar deeeesde o começo como é que funcionava meu esquema de seleção de amores para toda vida. Quase um processo seletivo da FCC. Só que passar nos meus critérios era mais difícil que passar em concurso público federal... Para se ter mais ou menos uma ideia, também recomendo a leitura do post Eu caso na hora que eu quiser!, escrito na época que eu era heterossexual e evangélico. 

Bom, vamos começar a historinha, desde o princípio, então. Saí do armário há um ano, vivi em alguns meses, louca e intensamente, toda minha sexualidade reprimida por 24 anos. Já há algum tempo, comecei a me cansar da vida louca e intensa e resolvi procurar alguém para dividir a existência. Como na vida real estava difícil encontrar alguém (mudei de estado, não conhecia praticamente ninguém, não sei dos points de encontro), eu mergulhei de cabeça nos aplicativos do amor. Lá estavam concentradas todas as possibilidades de relacionamento: pessoas a fim de amigos, de namoro, de sexo selvagem sem compromisso, de brincar com o sentimento alheio, etc... A única coisa que eu precisava fazer era saber filtrar "quem era para casar" e "quem era para pegar". Eu sei que este é um discurso altamente normativo, mas vamos convir de não mascarar a realidade com flores.

Para quem não sabe, nesses aplicativos, a primeira seleção funciona mais ou menos como uma vitrine de açougue, onde se escolhe a carne pela aparência. Conforme sua intenção, você lê as informações que possui no perfil e traça estereótipos na sua mente: se é branco e joga tênis, é rico; se ouve Madona e alisa o cabelo é poc-poc; se gosta de academia e depila o peito, é Barbie; se não curte afeminados e não depila o peito é machista misógino; e assim sucessivamente.  Havia também o momento em que outra pessoa que puxava conversa, já com um estereótipo de você na mente dela. E neste vai e vem, lá ia eu, a pessoa de humanas mais preconceituosa do mundo, tentar selecionar um namorado no aplicativo.

 Alguns, só pelas informações do perfil já eram descartados. Nos perfis restantes, a conversa fluía quase como uma investigação psicológica do CSI. Misóginos, machistas, pessoas que moravam há mais de 10 km, muito feios, excessivamente metrossexuais... Para cada grau de comportamento um valor era atribuído. Quem atingisse o valor mínimo era aprovado para a próxima etapa, que consistia na investigação olho no olho (encontro pessoal). Funcionava mais ou menos assim:
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Ficha de triagem e avaliação de futuros candidatos à marido

1. Que tipo de música você mais ouve?

(    ) MPB, Bossa-nova e samba 10 pontos
(    ) Sertanejo de raiz, hip-hop, forró, gospel 4 pontos
(    ) Sertanejo universitário, Axé, Calypso 2 pontos
(    )Funk, Rock internacional 0 ponto
(    ) Música eletrônica sem letra, pop internacional (Madona, Britney, Beyoncé, Lady Gaga e similares) -10 pontos

Bônus de 5 pontos se a música for da década de 1970 para trás.

2. Com que tipo de filme você mais se identifica?
(    ) Drama 10 pontos
(    ) Suspense, Thriller psicológico 5 pontos
(    ) Animação, comédia inteligente, romance inteligente, erótico 2 pontos
(    ) Ação, comédia alienada, romance água-com-açúcar, aventura, chanchada -3 pontos
Bônus de 5 pontos se o for da década de 1960 para trás.

3. Heteronormatividade



4. O quão afeminado você se considera?






5. Vida acadêmica

(    ) Doutorado 10 pontos
(    ) Mestrado 9 pontos
(    ) Graduação Completa/pós-graduação lato senso/mestrando 8 pontos
(  ) Aluno de graduação com perspectiva de ganhar bem (engenharias, medicina, odontologia, direito, etc.) 2 pontos
(   ) Aluno de graduação com perspectiva de morrer de ruim (pedagogia, enfermagem, nutrição, biblioteconomia, etc.) 1 ponto
(    ) Curso técnico, ensino médio completo ou cursando 0 ponto
(    ) Ensino Fundamental -5 pontos

6. Quais são suas cidades preferidas para viajar?

(    ) Orlando, Nova York  - 5 pontos
(   ) Paris, Roma, Londres 1 ponto
(   ) Colmar, Burano, Gásadalor, São José da  Safira 5 pontos
(   ) Tebas, Machu Picchu, Ouro Preto e similares 6 pontos
(  ) Lugar que eu nunca ouvi falar e não tenho a menor ideia de onde fica e que ele descobriu autonomamente sem ser manipulado pela mídia 10 pontos


7. Renda familiar






8. Religião

(   ) Satanista -10 pontos
(   ) Testemunha de Jeová - 8 pontos
(   ) Candomblé, umbanda 1 ponto
(   ) Budista, judeu, mulçumano, xintoísta, hindu sem opinião formada
(    ) Ateísta 3 pontos
(   ) Teísta, porém sem vínculo religioso  4 pontos
(   ) Cristão (espírita, católico, etc.) 5 pontos
(   ) Ex-evangélico 6 pontos

9. Literatura
(   ) Machado de Assis, Margareth Mitchel, Emile Brontë, Dostoiévski, Quino 10 pontos
(   ) Agatha Christie, J. K. Rowling, Shakespeare, Érico Veríssimo, Victor Hugo 5 pontos
(   ) Stephanie Meyer, Erica Leonard James, Augusto Cury, George R. R. Martin, Bruna Surfistinha e outras modinhas – 5 pontos

10. Posição sexual




11. Televisão

(    ) Adora TV Brasil e assiste TV senado e TV Câmara 20 pontos
(    ) Vê novelas mexicanas 10 pontos
(    ) Vê novelas 8 pontos
(    ) Adora séries, filmes e produções nacionais 5 pontos
(    ) Assiste apenas TV paga porque acha que só tem programa ruim na aberta. – 5 pontos
(    ) Adora produções americanas e acha que o Brasil não produz nada de bom – 6 pontos
(    ) Viciado no netflix – 8 pontos

12. Tamanho do objeto fálico
                                                                      
1-5cm
6-10 cm
11-15 cm
16-20 cm
21-25 cm
26cm ou mais
-5 pontos
5 pontos
10 pontos
9 pontos
2 pontos
- 5 pontos
           
*Obs: quanto mais largo, menos o produto será valorizado.

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Namorar com uma pessoa cujo Nova York é a cidade preferida? Mas que pessoa mais clichê, senso-comum, maria-vai-com-as-outras, classe-média consumista alienada... Por que ela não prefere Aix-en-Provence, Alexandria, Bolungarvik, Atlanta,  Quioto, Governador Valadares, Guarulhos que seja? Cansei desta desoriginalidade do ser. Estar para sempre ao lado de quem ouve aquela voz maravilhosa da Britney Spears, Justin Bieber, Dulce Maria, e companhia? Isso não era para meu bico.


Não era. Agora é.  

Percebi que a pessoa que eu procurava não existia. Na verdade, ela sempre existiu sim, e estava muito mais perto do que qualquer um de nós pudesse imaginar. A pessoa que eu procurei, no fundo, era eu. Ninguém quer namorar comigo porque eu namoro comigo mesmo e não sabia. Amor narcísico até a tampa. Freud explica isto.

Agora, depois que eu parei para analisar tudo isto, resolvi relaxar, e fazer como diz a música: deixar acontecer naturalmente. Resolvi baixar muito meu estratosférico nível de exigência. Se antes só dava chance para pessoas entre 20 e 40 anos, agora vou de 16 a 70.  Se antes menosprezava os estudantes de graduação, agora estou aberto a dialogar com todos os iletrados deste país.

Porque, talvez, o grande amor da nossa vida não tenha nada a ver conosco neste momento, mas ao se abrir ao diferente, nosso horizonte se expande e nos complementamos um ao outro.  Deu certo com Eduardo e Mônica. Por que não daria comigo?

E, neste espírito otimista, seguimos a vida.


“E quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?”

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3 comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. gostei..sou um pouco assim..mas sou tão cheia de nuances e variações..que um questionário como esse eu nunca conseguiria organizar...sou MARRIED MYSELF

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  3. Como diria a Britney:
    My loneliness is killing me (and I)
    I must confess, I still believe (still believe)
    When I'm not with you I lose my mind
    Give me a sign
    Hit me baby one more time

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