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“Eu caçador de mim”: uma odisseia em busca de temas para se pesquisar no mestrado – relato de experiência

sábado, setembro 19, 2015Roberth Moura


INTRODUÇÃO

“Entrar é fácil. Difícil é sair”. Esta é uma das frases mais evocadas pelas pessoas pessimistas que me rodeiam, desde os tempos remotos até a atualidade (detalhe: elas não se compreendem como pessimistas. Se consideram pé no chão. Eu é que sonho demais). Se eu quisesse alguém para me apontar as coisas ruins da vida, eu ia assistir os cidade alerta da vida, ou comprar os jornais de 25 centavos que adoram expor tudo de pior que o ser humano é capaz de fazer.  Estas pessoas pessimistas precisam urgentemente de carinho, ternura, muito amor, compreensão e, de vez em quando, encontrar alguém que passe a cara delas no chapisco do muro durante o inverno (e depois jogue álcool e sal para não infeccionar, pois caso infeccione, o pessoal dos direitos humanos – ou seja, eu – pode querer criar caso).


PROBLEMA

Enfim, de tanto ouvir empecilhos dia após dia em relação à execução da minha proposta de pesquisa, resolvi abandonar tudo e mudar de tema. Mas em meio a tantos problemas e tantas possibilidades, o que poderia eu pesquisar, não sendo repetitivo e buscando ser, ao mesmo tempo, minimamente útil para o avanço da ciência e da sociedade?
Esta é a pergunta que vale um milhão de dólares.

MÉTODO E RESULTADOS


Comecei a buscar resolver esta questão pensando nas coisas que eu gosto. Eu sou apaixonadíssimo pela psicologia. Mas sou ainda mais pela educação. A psicologia, pela ampliação de horizontes de compreensão do sujeito e do mundo. A educação pela possibilidade de transformação dos sujeitos e do mundo. A união das duas áreas seria para mim um orgasmo intelectual. Mas na vida a gente não faz só o que quer. E, de acordo com Darwin, não é o mais forte nem mais o inteligente que sobrevive, mas sim o mais adaptável. E como eu sou a pessoa mais volúvel do mundo, passei sem grandes dificuldades do 8 ao 80 em uma miríade de degrades de possibilidades epistemológicas.
O tema original, que trazia comigo desde antes de ingressar no programa de mestrado era “A escola e a educação para adolescentes e jovens homicidas em cumprimento de medida socioeducativa” (Se alguém quiser ler como foi o calvário para entrar em um programa de pós graduação stricto sensu, leia O mestrado). Os discursos a respeito deste projeto foram analisados segundo a análise de conteúdo temático-categorial e organizados nas seguintes categorias:

CATEGORIA 1: Pessimistas com conhecimento de causa – “Saia dessa vida; deu ruim pra mim, vai dar ruim pra você também”

“Mas o comitê de ética demora meses para te dar a resposta... Demora com todas! Porque não demoraria com a sua?” (PESSOA MÁ).

“Seu público é muito vulnerável. Você vai ter que submeter seu projeto, além do comitê interno da universidade, à outro comitê nacional. Eu fiz um estudo com indígenas que demorou oito meses para ter uma resposta deste outro comitê.” (PESSOA MÁ COM PÓS DOC).

“O Instituto responsável pelos adolescentes é cheio de burocracias. Meu projeto foi e voltou nem sei quantas vezes. E olha que eu conhecia todo mundo lá dentro. Durou sete meses o meu calvário. Tive que mudar de sujeito às pressas.” (PESSOA COM CARA DE ANJO, PORÉM MÁ).

“Olha aquela pilha de papel ali. O Comitê de ética só vai analisar isso depois das férias. Pode viajar tranquilo pra Minas.” (SECRETÁRIA MÁ).

“O juiz autorizou minha entrada no sistema, só que a direção do centro socioeducativo me barrou. Nada garante que se um órgão autorizar, todos vão te autorizar. É melhor deixar isso para seu doutorado, quando você tiver mais tempo e disposição” (PESQUISADORA EXPERIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO EM CONGRESSO INTERNACIONAL DA JUVENTUDE, MAS NEM POR ISSO MENOS MÁ).

 “O sistema socioeducativo pode entrar em paralisação a qualquer momento. Os agentes estão querendo aumento de salário” (CRISE, CULPA DA DILMA).

“Os adolescentes das Unidades Socioeducativas do Espírito Santo estão planejando uma rebelião que pode durar semanas, meses e até anos. Pesquisadores que se propõem a estudar as condições de vida destes indivíduos estão começando a tirar seus cavalinhos da chuva. Não está fácil para ninguém.” (FOLHA DE CARIACICA).

CATEGORIA 2: Pessimistas sem conhecimento de causa

“Eu não acho seu tema muito interessante não. Se eu fosse você, eu largava isso.” (PESSOA BRANCA, HÉTERA, RICA & MÁ).
“Para de defender bandido e vai pesquisar alguma coisa que realmente valha a pena” (PESSOA CLASSE-MÉDIA ELEITORA DO AÉCIO).
“Filho... Porquê cê tá mexendo com essas coisa perigosa? Não tinha nada mais fácil pr’ocê querer saber não? Eu vou orar pra Deus te tirar esses pensamento ruim de querer ir nas cadeia” (MÃE).

CATEGORIA 3: Tanto-faz com tendências pessimistas

“Qualquer coisa que nós façamos nunca vai ser original, pois sempre tem alguém que já pesquisou a mesma coisa no mundo. Você é que não está sabendo (ainda). Então, este tema ou outro vai ser a mesma coisa, no final das contas.” (COLEGA DE MESTRADO MAIS EXPERIENTE)

CATEGORIA 3: Tanto-faz com tendências otimistas

“Meu querido, nós vamos pesquisar o que você quiser. E se você quiser mudar de tema, nós mudamos juntos. Qualquer tema que você escolher pesquisar – este ou outros – a ciência vai sair ganhando. Quem fica parado é poste.” (ORIENTADORA COM ESPÍRITO DESBRAVADOR).

CATEGORIA 4: Otimistas

“Amigo, você é mara.” (VINÍCIUS)

“Eu tenho um sobrinho lá em Viana que já matou uns 10, mas tá foragido. Se você quiser, eu te levo lá nas quebrada onde ele tá escondido e você entrevista ele. Ele é um amor de menino!” (ZELADORA DO MEU PRÉDIO)

“Vai dar tudo certo, você tem futuro, sua pesquisa é inovadora, com imenso potencial transformador das mazelas sociais. Seu estudo vai romper os paradigmas da afirmação das estruturas hegemônicas de poder e transformar a realidade sócio-históricas dos sujeitos envolvidos” (AMIGA IMAGINÁRIA – vamos chamá-la de MÔNICA)


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Analisando os dados quantitativamente, os pessimistas ganharam disparadamente. Instala-se, neste momento o que podemos chamar de “A crise dos não-qualificados”, que desencadeia, geralmente entre junho e setembro e, quando desencadeada, permanece até abril, a data limite da qualificação. O ápice da minha crise foi em agosto, quando voltei saí das férias para entrar na vida real. E neste período, centenas de possíveis temas passaram pela minha mente. Vou listar alguns:
“Representações Sociais de espiritismo para evangélicos pentecostais de uma cidade do interior de Minas Gerais”
“Feminismo contemporâneo: divergências e convergências em subgrupos feministas universitários a partir de uma leitura tajfeliana”
“Amores bandidos: a vida afetivo-sexual de homossexuais em cumprimento de pena em regime fechado”
“Pequenas mentiras, grandes negócios: um estudo baseado na moralidade piagetiana sobre inverdades em currículos e entrevistas de emprego”
“Coxinha ou reaça? Exploração dos processos identitários em indivíduos do grupo ‘anti-governo’ no Brasil a partir da análise dos aspectos cognitivo, avaliativo e emocional de pertença ao grupo presentes em comentários em artigos políticos na Folha de São Paulo e na Carta Capital”
“Nega do cabelo duro que não gosta de pentear: análise da discriminação racial presente em letras de músicas populares das décadas de 80 e 90 – uma pesquisa em Representações Sociais”
“Tapinha de amor não dói? Um estudo comparativo entre pais que educaram seus filhos com e sem castigos físicos”
“Eu vou cortar a sua língua e arrancar os seus olhos: análise psicanalítica da preferência popular por vilãs em detrimento das mocinhas nas novelas nacionais e mexicanas”

À GUISA DE CONCLUSÃO

Esta é só uma pequena amostra de tudo que se passou na minha mente. A cada conversa, cada música, cada filme, cada capítulo de Verdades Secretas, cada pássaro cantando eu tinha uma ideia diferente.
Esta semana eu estou com a homofobia. Pretendo investigar o significado que ela possui para grupos de homens heterossexuais e homossexuais. Vamos ver se dá certo. Ou se outros pessimistas virão. Ou se os mesmos trarão novos argumentos.
Pessimistas não passarão.



Beijos no coração e até a próxima!

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