Curiosidades Humor

Coisas estranhas que se passam na mente de uma criança

segunda-feira, agosto 17, 2015Roberth Moura


Um título melhor poderia ser Desvendando enigmas de uma mente infantil ou Coisas (insanas) que pensava (e fazia) quando criança. Inspirei-me nos vídeos da Jout Jout Prazer para escrever este post. Vê lá, o canal dela é super divertido: https://www.youtube.com/watch?v=PGqenP6MJkw.

Eu pensei em criar um vídeo também, mas eu fiquei parecendo aqueles apresentadores filho/esposa/amante do dono da emissora em início de carreira e pensei em seguida, “melhor, não”. Escrever é muito mais confortável. Vamos, então, mergulhar no fantástico mundo de Bob. Deliciem-se com minhas peripécias infantis.

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Por volta dos seis anos, quando começava a chover, eu levantava as mãos para o céu e ordenava à chuva que parasse. Mesmo se ela parasse horas ou dias depois, eu acreditava que se não fosse minha intervenção, ela duraria para sempre.
E não foi apenas uma ou duas vezes que eu salvei a humanidade. Isso era uma tarefa diária. Por exemplo, eu andava na calçada, em cima do meio-fio, sem poder tocar nas emendas, pois caso tocasse, seria acionado a contagem regressiva do fim do mundo, um buraco iria se abrir naquele momento e sugar tudo para o centro da Terra. Eu sou quase um herói.
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Achava que cheques não precisavam ser compensados, que era um papel mágico que o banco dava para seus clientes. Levei anos para entender a lógica capitalista.
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Andava na rua contando os paralelepípedos. Também contava os vagões do trem de minério. Contava os degraus da escada, as estrelas, as formigas nas fileiras. Não tinha nada mais para fazer na vida além de contabilizar as coisas.
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Ao contrário de muitas crianças que pensavam que existiam pessoinhas dentro da TV, eu achava que nada daquilo era real. Quando digo nada, é nada mesmo. Pensava que tudo aquilo era criação feita especialmente para me iludir. Uma espécie de Matrix.  Por exemplo, eu só fui acreditar que São Paulo existia depois que eu fui lá. Eu acho que é porque eu sempre fui uma criança muito imaginativa, lia muito e devaneava demais, transformando a fantasia em realidade e a realidade em fantasia o tempo todo.
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Eu morria de medo era de ir para FEBEM. Ouvia que as piores atrocidades do mundo aconteciam lá dentro, e que o homem do carro preto poderia a qualquer instante me pegar e me levar pra lá. Passava a um raio seguro de distância de todo carro preto que aparecia perto de mim.

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Eu achava que todos os meus parentes que moravam fora eram ricos, porque todas as vezes que eles vinham, a gente saía, tomava sorvete, passeava, tudo por conta deles. Quando eu cresci, descobri que a gente junta dinheiro o ano todo para poder viajar.

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Quando minha professora explicou como os bebês nasciam no parto normal na 1ª série, eu não acreditei, porque era inconcebível pensar que um bebê caberia naquele buraquinho.

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Falando em buraquinho, eu só fui saber que mulheres não fazem xixi pela vagina quando entrei na universidade. Como eu era o “mó virjão” de todos os tempos, só nas aulas de anatomia, no primeiro semestre que eu fui descobrir a existência da abertura uretral.
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A primeira vez que eu li Os Miseráveis, de Victor Hugo, eu pronunciava o nome do personagem principal como Din Valdin (Jean Valjean). E eu sempre achei este nome esquisito. Tipo Dante Mercadante ou Mara Gilmara.

 Nesta coisa de nomes, também achava que o Ney Latorraca se chamava Neila Torraca e não Ney.


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      Na música "O movimento é sexy", eu acreditava piamente que um mamão ia na cabeça. Depois que amadureci, pensei haver mais lógica em ser "uma mão vai na cabeça". Mas até hoje eu não sei a verdade, de fato.

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Na época da novela Zazá, eu achava que a Zazá (Fernanda Montenegro) era minha vó. Não me perguntem o motivo, razão ou circunstância.

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    Sempre pensei que a Elke Maravilha fosse travesti ou transexual, tipo a Nany People ou a Mamma Bruschetta. Só descobri que ela era mulher depois que assisti o filme Zuzu Angel e resolvi pesquisar sobre a relação entre as duas.  

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Eu também não sabia diferenciar quem era o Chitãozinho e quem era o Xororó. Para falar a verdade, se quisessem apostar mil reais comigo agora para eu identificar quem é quem, eu não apostaria. Esse é um dos mistérios da vida que a gente vai levar para o túmulo. 

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Teve um momento da minha vida que eu queria ser órfão, só para morar em um orfanato igual das Chiquititas.

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Meu mundo caiu quando descobri a verdadeira idade dos personagens do Chaves. Na minha cabeça de criança, nunca havia passado sequer a hipótese que Chaves, Kiko, Nhonho e Chiquinha eram adultos, com família e filhos para criar.

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Quando estava na 4ª série, fizeram-me acreditar que a 5ª era uma mudança total na minha vida, que era a pior coisa do mundo. Quando eu cheguei lá, fui convencido que existiam infernos ainda piores, que a 7ª série é que era o cão chupando manga. Pura pressão psicológica. Todas as etapas tiveram o mesmo grau de dificuldade. Vou confessar que eu fui surpreendido na aula de história, quando vieram falar do descobrimento do Brasil. Pensava eu, que fôssemos ouvir João e Maria, Chapeuzinho vermelho, Os três porquinhos, etc...

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Eu falava nódia, flauda e galfo, achando que estava tudo certo.

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Na primeira vez que passou A Usurpadora, eu fingia ser alguém estranho se passando por mim. Fazia de conta que esquecia detalhes sobre minha vida, que não conhecia bem as pessoas, e andava sob pressão o tempo todo visto que a qualquer momento eu poderia ser descoberto. Tinha até trilha sonora na minha cabeça.  Quase levei uma surra por isso. (Leia A vara Santa e saiba como funcioinava o esquema de correção lá em casa)
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Isso foi no mesmo ano que o mundo ia acabar – 1999. E eu morria de medo dele de fato acabar e eu ir para o inferno. Na verdade, desde que eu me comecei a frequentar a igreja evangélica, aos seis anos, que eu comecei a ficar com medo do Demo. Porque eu lia o apocalipse e tremia nas bases. Refletindo agora sobre meu passado, é no mínimo curioso o fato de que eu não acreditasse que existiam as coisas, lugares e pessoas que passavam na TV, mas cresse literalmente no apocalipse. Dá um estudo de caso interessante, isso aí.
Eu também ficava com medo de ir para o inferno porque cantava músicas “mundanas”. Hoje em dia eu faço coisa muito pior – tipo muito pior mesmo – que cantar musica mundana parece uma gota de orvalho no oceano pacífico.

Mas falando em medo do inferno, o fim do mundo tinha data e hora marcada. Mas, de acordo com o pastor da minha igreja, Jesus poderia voltar de surpresa e pluft! Os pecadores ficariam para trás e seriam obrigados a colocar o microchip da Dilma na testa ou na mão. Então, todo cuidado era pouco. Preocupação da vida infantil: E se isso acontecesse ENQUANTO eu estava assistindo A Usurpadora? Não haveria salvação para mim. Eu não teria argumentos para justificar meus pecados. Para ter um certo nível de garantia, todos os dias, antes de dormir, eu pedia perdão por todos os meus pecados daquele dia, para o caso de acontecer alguma eventualidade durante o sono.

Besta do apocalipse
Só para deixar claro, a besta que emergia do mar, com sete cabeças e várias diademas, que parecia leopardo, mas na verdade tinha patas de urso e boca de leão, me deixa aterrorizado até hoje.
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E hoje eu tenho vários tiques, pensamentos disfuncionais e medos descabidos. Em 2025 eu volto aqui para compartilhá-los com vocês. Se nenhuma eventualidade acontecer.


Até mais e beijos no coração!

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2 comentários

  1. Nossa... oderei o depoimento. Parabéns por estar superando tanta culpa! Beijos!

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    Respostas
    1. Muito obrigado! Escrever também me ajuda a superar várias coisas... É quando eu elaboro sentimentos confusos que me atormetam. Sempre acreditei que quando o monstro ganha nome e forma, ela fica menos temível.

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