Humor

Histórias de apartamento

domingo, julho 05, 2015Roberth Moura

Pela primeira vez na minha vida, em toda a história deste país, eu passei a morar em um apartamento. E percebo que nesta vida ninguém tem privacidade. De nada. E de repente me surgiu a ideia de, a partir de agora, me tornar Luís Fernando Veríssimo Júnior e escrever milhares de comédias da vida privada, ficar famoso e rico, e me mudar para o sul do país.
É vero. Vero, não: veríssimo.
Este é o tipo de trabalho que o comitê de ética em pesquisa com humanos jamais aprovaria: uma pesquisa etnográfica com observação não-participante sem a ciência – quem dirá o consentimento – dos sujeitos pesquisados. Envolvendo menores de idade, ainda por cima. Sou quase um Josef Mengele.
Enfim, vamos às histórias, começando pela parte mais libidinosa.
__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__


E a parte mais libidinosa é a vizinha da frente que fica nua e acha que não tem ninguém olhando. Todos os dias, às 7:15 da manhã. Exceto aos domingos e feriados, que ela fica nua o dia todo. Às vezes, parece que ela sabe que está sendo vista, e eu penso que isto, secretamente, lhe dá prazer. Ela é minha exibicionista e eu, seu voyeur. Doida varrida.  O CID dela é F65.2. Vou lascar 50 tons de cinza nela, para ela aquietar o facho.

__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__

– Ah, não, mãe... não sei como é que a senhora consegue ficar o dia todo vendo essas novelas. As novelas de hoje nenhuma presta, tudo a mesma história de sempre. Antigamente que só tinha novela boa: A gata comeu, Torre de Babel, Vale Tudo, Roque Santeiro, A viagem... E tem aquela que eu gostava demais também... Mas eu esqueci o nome dela... Aquela, mãe, que o Toninho vinha aqui pra casa namorar e eu obrigava ele a assistir a novela toda comigo, calado, até o final.
– O clone?
– Não, mãe... Mas essa daí também foi boa. No clone, a gente já tinha casado e eu estava esperando o Gabriel. Foi antes... Aquela que a protagonista chamava Helena.
– (...)
– Até que ela fazia tudo pela filha. Que tinha uma garota que infernizava a vida de todo mundo.
– (...)
– Do Manoel Carlos, mãe, nossa! Até que tocava aquela música de bossa-nova que a senhora gostava, que a senhora cantava toda errada assim “♫ quai é quai só quér star ♪”... A senhora deve estar com Alzheimer.
– Eu? Tem certeza?
– Era com aquela mulher do olho azul que foi miss Brasil e que eu esqueci o nome também... Aquela que uma vez foi internada porque cheirou todas. Que tem a voz rouca, bonita....
– Mulheres Apaixonadas?
– (sem paciência) Ah, mãe, deixa pra lá, a senhora não sabe de nada. Volta a assistir essas novelas ruins suas.

__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__

Tem também a vizinha que fica xingando caralho o dia todo. A gente muda para um bairro melhorzinho achando que as pessoas são polidas e adoráveis, mas é tudo dinheiro jogado fora. Não adianta mudar, porque tem boca porca em todas as classes sociais, em todos os lugares do mundo.

__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__

Aí tem a dieta que toda segunda feira jura-se que vai começar. Quem disse que os pestilentos dos vizinhos permitem? Começa às seis da manhã, com o suave cheirinho do café preto. Daí a pouco sobe o cheiro do bacon, do queijo, dos ovos, da manteiga, do amor... A partir das dez da manhã já se ouve o barulho das panelas, o fritar dos bifes, e se sente o odor das cebolas e das batatas fritas. E a lasanha que acabou de sair do forno? Só de olhar pela janela pra ver aquela textura maravilhosa, já se engorda 300 gramas. Isso sem falar no bolo de cenoura com chocolate do chá das 15. E por aí vai...
__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__

Triiiimmmm!!!! (interfone toca)
– Quem é que ousa me acordar seis e meia da madrugada?
– Desculpa, não queria incomodar. Eu sou sua vizinha. Moro no 202, embaixo de vocês. Eu estou incomodando porque tem uma goteira aqui desde ontem, caindo do meu teto. Eu falei com o zelador e ele me disse pra te falar pra você consertar o cano.
– Colega, me responde uma coisa: você está com depressão?
– O quê isso tem a ver?
– Responde! Está ou não está com depressão?
– Não.
– Dificuldades de aprendizagem?
– Não.
– Problemas de relacionamento, oscilações no humor, angústia existencial, preocupação com o futuro, ansiedade?
– Nada disso.
– Gravidez psicológica?
– Não mesmo.
– Tem certeza?
– Absoluta.
– Pois então. É uma pena, mas eu não posso te ajudar. Eu sou psicólogo, e a única coisa que eu sei fazer é lidar com a dor, a loucura e os distúrbios emocionais. Não tenho a menor ideia de como consertar cano. Chama o encanador aí e depois a gente racha as despesas. Passar bem.
__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__

E a vizinha que fica no telefone o dia todo:
– Ai, amiga! Eu não quero mais saber do Carlos Eduardo. Ele foi pra festa na UFES sem me avisar. Com certeza ele tá atrás das galinhas de lá. Eu falei com ele que eu não proíbo ele de sair com os amigos. Mas o quê que custa mandar mensagem avisando pra onde vai e com quem vai? Se não avisa é porque tá escondendo alguma coisa...
__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__

– Cara, como assim? Você é preto e vota no Bolsonaro?!?
– Você é gordo e votou na Dilma. O quê que tem a ver uma coisa com a outra?
– O Bolsonaro é contra cota de negro nas universidades.
– Ih... Vai começar com a ladainha petista de novo. Nem de preto eu gosto!
– Eu não acredito nisso. O sujeito é racista com ele mesmo. (gritando) Está escutando isso Batata?
– (uma voz ao longe) E eu não sei? Uma vez eu arrumei uma gatinha, mó filé, pra ele, e esse tiziu rejeitou. A Nicinha, do segundo semestre de enfermagem, cê conhece. Deu o fora nela, só porque a mina era escurinha.
– Eu NÃO-ACREDITO-NISSO, Gerê. Isso é verdade?
– É verdade sim. Eu não sou obrigado a gostar todo mundo. Gosto é igual cu. Cada um tem o seu. E não vem me olhando com essa cara de bunda não que nem é preconceito. Eu já saí com a Shayene que morava na favela, com a Bete que tinha dente faltando, com a Vitória que era burrinha e tinha a cabeça achatada, que só vendo. Saí até com a Odália que era gorda, e gostei muito. Você é que é preconceituoso, e falso, porque não quis sair com ela, só porque ela era cheinha. Xeque-Mate. Chupa essa seu esquerdopata comunista.
Silêncio mortal.



__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__

Uma pessoa sem nenhum senso de coletividade, completamente despreparada para levar vida digna em uma sociedade altamente organizada e civilizada, canta na maior altura:
♪ Me leva amor...
AmoOoOoOoOoooor!
Me leva, amor...
Por onde for, quero ser seu par ♫
Dá vontade de denunciar ao síndico e convocar uma reunião com todos os condôminos para resolver de uma vez por todas este problema. E eu faria. Se o cantor não fosse eu. Eu parto do pressuposto de que, se ninguém reclama, é porque estão todos gostando. Após um dia cheio de tons de cinza, estresse e monotonia, eu venho trazer cor para a vida deles. Eles adoram.
__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__

– João Pedro, vai tomar banho agora!
(Minutos depois)
– João Pedro, não me faz perder a paciência com você de novo! Todo dia é a mesma coisa. Você não aprende nunca!
– Sai desse jogo A-GO-RA. Vou te pegar de chinelo, João Pedro.... Eu falo com você e você não me escuta...
Silêncio por alguns minutos. Em seguida, barulhos suspeitos, os quais o Conselho Tutelar jamais pode ouvir. Daí a pouco, barulho de chuveiro, menino jantando, e todos sendo felizes para sempre.
__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__...__

Mais tarde, vindo de outra direção uns sussurros abafados:
“Ai, Julimar! Vai Julimar! Tudo, Julimar... Eu quero TUDO!”.
Eu, hein... conversa esquisita...
Fecho a janela do meu quarto e vou dormir que eu ganho mais. Além do mais, amanhã será um novo dia e infinitas novas histórias se ouvirão da janela do meu quarto...

Beijos no coração e até mais!

You Might Also Like

0 comentários

Flickr Images

Formulário de contato