Humor Ótica Psicológica

E aí, já formou?

quinta-feira, julho 16, 2015Roberth Moura

O padrão de diálogo que eu tenho nas minhas férias no interior de Minas Gerais, 
em cada casa que eu visito, 
a cada amigo que me encontra nas esquinas da vida, 
a cada parente que eu vou pedir “bença”.


– Cê já formou?
– Já sim, graças a Deus.
– Cê fez faculdade de quê mesmo?
– Psicologia.
– E cê tá ganhando quanto?
 – Eu ainda não estou trabalhando. Eu preferi continuar estudando...
– Cê é malandro demais, né? Pegar no pesado, que é bom. ninguém quer. E quê que cê tá fazendo agora?
– Eu faço mestrado, em psicologia mesmo.
– Mestrado? Quê que é isso?
– Imagina uma escadinha: (fazendo com as mãos) prezinho, quarta-série, oitava série, segundo grau, faculdade, mestrado, doutorado, pós-doutorado. Eu estou subindo a escadinha. Daqui a uns 8 anos eu chego no topo.
– Cê é inteligente demais, né? Benzo Deus. Mas como é que entra nisso? Cê fez ENEM e passou?
– Tem uma prova de inglês, uma de métodos de pesquisa e uma entrevista. Se passar nas três, tá dentro.
– E onde cê ta morando agora?
– Em Vitória.
– Mas é Vitória MESMO?
– É em Vitória mesmo mesmo.
(nessa parte em sempre respondia em pensamento “não, não é Vitória mesmo. É em Toronto. Eu estou lá ilegalmente, traficando ecstasy, por isto falo que estou em Vitória, para despistar a polícia federal”. Mas aí quando descobri o sentido da pergunta passei a compreender o processo de construção das representações sociais de Vitória dos sujeitos do interior de Minas e ser mais complacente com eles).
– Eu tenho uma tia que mora lá em Vila Velha. Eu conheço aquela região de Vitória toda. Onde é que cê ta morando?
– Em Mata da Praia.
– Onde é que fica isso?
– Pertinho da UFES, do parque Pedra da Cebola, da praia de Camburi...
– Ah, sei... Mas aqui, o aluguel lá deve ser caro, né? Coitada da sua mãe... Quando ela pensa que vai descansar, cê dá é mais prejuízo pra ela.
– Ela não me manda dinheiro mais não, graças a Deus. Eu ganhei bolsa e agora já tenho dinheiro pra pagar tudo. Até sobra.
– E quanto que eles te dão?
– 1.500,00.

– Mas isso é muita malandrangem! Ganhar MIL E QUINHENTOS pra ficar à toa, só estudando! Eu também vou querer fazer mestrado agora, uai. Não pagar nada pra estudar e ainda ganhar essa dinherama toda! Desse jeito até eu fico o resto da vida estudando! (só um parêntese para falar que na grande maioria das vezes @ fulan@ não tem força nem para terminar o ensino médio).

– Eu não fico ganhando à toa não, querido. Eu trabalho, e muito naquele lugar.
– Fazendo o quê gente?
– Sabe aquelas pesquisas que passam no fantástico? Tudo a gente que faz.  (essa eu aprendi com a Roberta Rangel)
–Hum... Legal.
(uns minutos sem assunto, devido ao longo tempo sem contato)
– E as namoradinha?
(Segundos de silêncio constrangedor. Dependendo da idade/intimidade que eu tenho com a pessoa a resposta vai ser diferente. Tenho duas categorias de respostas: dedicação e pegação):
– Ô, tia-avó-solteira-aos-69-anos, eu não estou namorando ainda porque eu prefiro me dedicar aos estudos. E namoro distrai muito a gente, requer atenção, disposição de tempo... A senhora sabe como é que é, né?

OU

– Namorar? Eu? Pra quê ficar com uma se eu poderia ficar com várias? Cara, você não tem ideia, mas aquela universidade é cheia de mulher bonita. Eu quero ver é você ir pra lá e namorar com uma só por mais de duas semanas. Impossível.

Aí acabaram todos os assuntos e cada um vai para seu canto. Toda existência é resumida em estudar-trabalhar-namorar. E a vida segue....

Aô lá em casa...


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Leia também “E aí, vai formar quando?” e veja um exemplo do tipo de diálogo que era estabelecido durante a graduação pelos moradores da pequena grande Safira City. 

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2 comentários

  1. Parabéns! Você tem muito talento. Ótimos textos.

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  2. Desse tipo de gente é melhor manter distância ou ignorar, mas para quem faz Psicologia pode até servir como estudo de caso.

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