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A vida em república

segunda-feira, março 16, 2015Roberth Moura


"Você não pode morrer sem passar por experiência similar..." 
(The New York Times)



Para quem ainda não sabe, eu escrevi na postagem anterior O mestrado sobre a minha aprovação no mestrado em psicologia da UFES. Pois bem. Ano novo, vida nova e lá vou eu me mudar de cidade mais uma vez. Também, para quem não sabe, eu escrevi em outro texto um pouco sobre a minha primeira mudança, para fazer a graduação. O texto se chama A adorável pobreza.

Como eu tenho certeza que neste momento você já leu A adorável pobreza, você deve estar ciente de que eu, como boa parte dos brasileiros, sou (ou melhor, estou) socioeconomicamente hipossuficiente.  Por este motivo, fiquei semanas a fio procurando por repúblicas mais baratas, não importando quais condições elas impusessem a mim. Estava topando até ser escravo sexual para ganhar um desconto. Sei lá... nestas repúblicas mistas a gente encontra de tudo. Enfim, encontrei duas que, mais baratas impossível: uma de R$300 e a outra de R$290.

O dilema psicológico estava travado. Entrave mortal. Eu não conseguia nem dormir direito.

Fui ao Espírito Santo visitar as duas repúblicas para ter de volta minha paz de espírito outrora extirpada de mim pelo vil metal. A república de 290 era quarto individual, a 10 minutos a pé da faculdade, incluía todas as despesas (água, energia, aluguel, condomínio, iptu e internet) e moraríamos 4 pessoas no total. A de 300 era quarto compartilhado com mais 1 pessoa, a 15 minutos da facul, incluindo todas as despesas exceto energia, que é variável e dá cerca de 15 reais por mês. Mesmo assim eu fui obrigado a optar pela segunda opção.

O quarto da primeira república era menor que meu banheiro: cabia uma cama e talvez um ventilador em cima de uma cadeira pequena, se a gente colocasse com muito amor. Até aí, tudo mais ou menos bem. Foi quando chegou o momento em que eu vi aquele fogão emplastrado de gordura de centenas de anos que nem soda cáustica com ácido muriático seriam capazes de tirar. Aquilo, na verdade, não parecia um fogão, mas sim um criatório de colônias de bactérias de produção de larga escala. Se o fogão estava assim, o banheiro nem se fala; e o cheiro que exalava a sacada onde os tênis são colocados depois de usados, menos ainda.  A outra república (ou seja, a que eu escolhi) estava bagunçada, porém limpa. Desorganização é uma coisa. Espírito de porco são outros quinhentos.

(Só um adendo: limpeza não é viadagem. É higiene.)

Semanas depois mudei-me para Vitória, a maravilhosa capital do grandioso estado do Espírito Santo. “Morei sozinho os últimos 4 anos e agora vou dividir meu oxigênio domiciliar com mais 4 pessoas”, pensei. Que responsabilidade!

Eu fiquei com um pouco de receio no começo porque eu ouvi muitas histórias assombrosas de repúblicas. Em uma história que me contaram, quase uma novela mexicana, aconteceu o seguinte: um rapaz queria usar o tanquinho para lavar a roupa, só que no tanquinho estava, há dias, a roupa de outro colega. O rapaz vinha pedindo ele para tirar, e o colega tomou birrinha dessa insistência e não tirou. O rapaz, então, tirou a roupa e a água do tanquinho, colocou em bacias, lavou a roupa dele e colocou de volta a roupa do colega no mesmo local, do jeitinho que estava antes. O colega viu que foi “afrontado”, pegou água sanitária e jogou na roupa do rapaz que estava pendurada no varal, manchando-as todas.

Nas repúblicas femininas, então, ouvi um filme de terror atrás do outro: uma que deixa comida apodrecer na geladeira e não tira, outra que entope o ralo de cabelo, outra que não dá descarga no número 2, outra que pega o vestido da companheira para ir pra festa escondido, mancha ele de vinho e coloca no lugar como se nada tivesse acontecido, uma que come um restinho de sorvete da outra e a outra para vingar lava a privada com a escova de dente da uma, outra que dorme com o namorado da “amiga”, etc, etc, etc...

Enfim,  comigo não vai acontecer nada disto porque eu sou eu. E Deus seja louvado.

Como mecanismo de defesa, meu ego – que não é bobo nem nada – ficava me dando estímulos: “vai na coragem! Isto vai ser ótimo para seu crescimento pessoal! Você vai amadurecer muito com esta experiência! Vai ser bom, nós vamos nos divertir à beça!”. Ok, Sr. Ego, não precisa exagerar, mas valeu pela força.

Na nossa república – que tem até nome: Relativa - somos de áreas completamente diversas: eu da psicologia, dois da física, um de química e um da engenharia. Tem gente de Minas, do Mato Grosso, da Bahia, do Rio Grande do Sul e do Espírito Santo. Se eu não aproveitasse esta oportunidade para aprender a lidar com a diversidade, eu não teria outra chance destas tão cedo.

Os primeiros dias passei só na observação. Quem faz o quê, a que horas, como e porquê. Muitas vezes eu não encontrava nexo nas coisas, mas tudo bem.

Um dia eu fiquei segurando a ‘flatulência’ o dia todo. Queria usar o banheiro para fazer o número 2, mas ainda estava na fase da vergonha alheia, esperando todo mundo sair. O que eles iriam pensar de Minas Gerais se sentissem o odor que saía de dentro de minhas entranhas? E dos psicólogos, então? Para todos os efeitos, psicanalista não faz este tipo de coisa horrenda. Só pacientes neuróticos que se fixaram na fase anal do desenvolvimento humano.

E, após um dia todo de resignação, aí você pode pensar “é só entrar para o quarto, fechar a porta e ficar tranquilo, na paz”. Ledo engano. O quarto é compartilhado. Nem roncos escandalosos se pode soltar. Nem se pode assistir de madrugada “Maria la del barrio” baixado da internet. Desgraça pouca é bobagem.

A coisa legal é a diversidade de opiniões, a convivência diária com seres completamente diferentes. Aqui é quase como um laboratório de psicologia social, sendo eu ao mesmo tempo, o pesquisador e a cobaia. O bacana mesmo é quando seu colega mete a lenha nas coisas que você gosta e ainda pergunta “O samba de hoje em dia não presta, né verdade?”. “Não, não é verdade”. E aí varamos madrugadas...

Após alguns dias de convivência, chega uma hora em que um sujeito social do grupo solta gases de todas as formas por todos os orifícios. Psicologicamente falando, de acordo com a Teoria de Campo de Kurt Lewin, isto significa que a partir daí você já passou da categoria de calouro desconhecido para uma esfera mais íntima, de parceiro (ou seja, mano), um degrau abaixo de amigo. Porque segundo o artigo de Kardo Schwanpz Análise psicossocial da evasão de flatulências em grupos de estudantes republicanos: um estudo de caso, é necessário existir uma interação social anterior ao fato em si para a firmação e consolidação dos laços e não espantar os indivíduos que fazem parte de determinado grupo nos primeiros contatos.

E apesar de todos os contras, no balanço final eu tenho a sensação de estar saindo ganhando. Conviver com outras pessoas diariamente te ajuda a conhecer os seus limites, corrigir os seus defeitos, aprimorar as habilidades de relacionamento interpessoal e, principalmente, faz você aprender a exercitar a tolerância, o companheirismo e a cumplicidade.  

(Está bom, Ego, já chega. Vou chamar o Superego pra você!)

Mas é isto aí. Qualquer coisa que a gente brigar, dar soco um na cara do outro, empurrar escada abaixo “acidentalmente” eu conto aqui, caso não seja eu que tenha “acidentalmente” caído da escada. Até mais!




(P.S.: A parte do Kurt Lewin e do Kardo é brincadeira, viu gente, rs... Não usem isto em seu TCC, jamais!).

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5 comentários

  1. kkkkkkkkkkk, gente eu tive que segurar a gargalhada por que to em horário de serviço.
    Tenho que ler essas coisas no horário do almoço, quando fico sozinha na sala, dai posso rir pra danar...

    Nunca precisei morar em republica, deve ser uma experiencia interessante, mas uma hora deve cansar. O lado bom é que, passa! Tudo tem o seu tempo, continue tirando proveito do que vc esta vivendo agora!

    Ahh e continue registrando tudo aqui, é divertido demais acompanhar!

    Abraço.

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    Respostas
    1. Eu fico feliz que o texto tenha lhe agradado! :) É sempre um prazer saber que os leitores gostam!

      Abraços!

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  2. Ana Laura Marinho19 março, 2015

    hahahahahahaha muito bom Oda!

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  3. Menino, você se supera sempre nesses posts! Tô aqui bolando de rir! Boa sorte nessa nova etapa.

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