Filosofias e Reflexões

A rica garotinha pobre

quarta-feira, fevereiro 11, 2015Roberth Moura


Imagine uma atriz mirim de uma novela da Globo. Agora, desimagine isso. Ou melhor, imagine exatamente contrário. Uma criança descabelada, suja de terra, escorrendo suor e talvez até catarro. Talvez, para você que mora em uma grande cidade, ficaria mais fácil assimilar se pensasse em uma garota favelada, jogada aos trapos, pobre.
Pobre, não. Carente.
Carente, não. Humilde.
Humilde, não. Indivíduo socioeconomicamente hipossuficiente, nas garras da vulnerabilidade social.
Essa é Ana Françoise. Menina sem idade definida, com os olhos sorrindo, com a alegria da vida. Ana, por causa de Sant’Ana, santa a quem a mãe é devota. Françoise por causa da avó do patrão do pai, padrinho da pequena princesa. Não mora na favela, e em nenhuma favela na cidade. Esvoaça pelos campos, fugindo da maldade.
Tem as mãos cheias de terras e as unhas encravadas. Só não gosta quando chega à tardinha, na hora do banho, na beira do rio, sua mãe pega o pente fino e a chama com o olhar atravessado, embora brejeiro. Hotel de piolho 5 estrelas. Este é o apelido que sua mãe deu para os cabelos esvoaçantes da Aninha. Ela tira e tira os piolhos, mas sempre aparece, como se fosse por geração espontânea. “É porque o sague dela é doce, só pode, pobrezinha”. 
Mas ela não é pobre. Nem carente. Tampouco “humilde”. Talvez seja socioeconomicamente hipossuficiente. Talvez. Mas ela é rica.
Ela tem a liberdade que você não tem. Na verdade você tem mas não usa. Não aprendeu a usar. Aprendeu a ficar preso, cada vez mais nas tramas da sociedade perversa. Preso no olhar do outro. Mas ela usa a liberdade, balança o cabelo, remexe a escadeira e joga na sua cara, livre, leve e solta.
Pobre é você. 






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1 comentários

  1. Maria Clara29 julho, 2015

    Que texto lindo. Profundo, porém sutil. Toca na alma e faz refletir. Pura poesia.

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