Humor Ótica Psicológica

O flagra do ex-paciente que fugiu da terapia

sábado, janeiro 31, 2015Roberth Moura


Levou bolo. E agora?

            Essa postagem foi exclusivamente escrita para os (inseguros) estudantes de psicologia de plantão, que assim como eu devem imaginar inúmeras coisas quando levam um “bolo” do paciente. Ainda mais se este bolo for por toda a eternidade, quando o paciente não dá as caras nunca mais.

Eu nunca levei mais bolo na minha vida do que no 5º período do curso, no estágio da triagem (Clique neste link e leia mais sobre A triagem psicológica). De cada 30 clientes que você agendava, 5 compareciam. Levava 25 bolos. Eu vou parar de ficar falando gírias e falar o português culto, porque pessoas do mundo todo visitam minhas peripécias psicológicas. Para quem não está acostumado ao português brasileiro das ruas, “levar bolo” é quando uma pessoa marca um compromisso com você e não o cumpre. No caso da terapia, é quando você combina com o cliente dia e horário para atendimento e ele não comparece e não dá satisfações antecipadas. E não me pergunte a origem da expressão porque eu não faço a menor ideia.

            Bom, vamos ao caso. Encontrei meu ex-paciente no restaurante. Na verdade, não me encontrei com ele, mas o vi chegar. Bateu uma angústia existencial no âmago do estômago. E agora? Aceno? Digo oi? Aperto a mão? Pergunto se está tudo bem? Ou fico na minha, fingindo que não o vi ou que não o conheço? Fiquei quietinho e caladinho.

Bem-vindo, companheiro!
Se fosse um ex-paciente qualquer, que tivesse ganhado alta ou que tivesse me dito os motivos pelos quais abandonou a terapia, seria outra história. Este era especial. Ele havia fugido de mim. Não compareceu às sessões, não atendia às ligações, não respondia aos recados. Imagina o que passa na cabeça de um semi-psicólogo em um momento destes. A manifestação clássica da Síndrome da Rejeição Eterna: “ninguém me ama, ninguém me quer. Vou largar a psicologia e virar engenheiro. Ou professor de matemática. Ou dançarino de boate na Frei Caneca. Ou integrante do Movimento dos trabalhadores rurais Sem Terra (MST) para ocupar terras alheias; talvez lá alguém me ame”. Estes são apenas alguns exemplos dos desdobramentos intrapsíquicos do chamado “bolo da psiqué”.

E de repente eu o tenho a metros de mim. O objeto investido de afeto que fez brochar meu falo simbólico. E aí vem uma onda de pensamentos altamente neuróticos de amor-próprio ferido: “Será que eu não fui bom o suficiente? Será que eu toquei forte demais na sua ferida com uma faca de dois gumes? Ou pior: Será que ele me trocou por outro?”. São neuras que vou levar comigo para a minhas sessões de terapia (quando eu tiver dinheiro para pagar).

E agora? Ignoro? Jogo um copo de água na cara dele, dizendo que ele me usou como papel e jogou fora? Aperto sua mão, dou-lhe um abraço e relevo tudo que aconteceu, mostrando-me um ser longânimo e de alma elevada? Na dúvida, é melhor não fazer nada. Tem um provérbio na bíblia que diz que o tolo que fica em silêncio se passa por sábio. E como eu adoro me passar por sábio, eu nada fiz.


Mais tarde, durante a supervisão de estágio eu contei para a professora o episódio e perguntei o que eu deveria fazer nestes casos. Ela (sabiamente) me instruiu a aguardar. Se caso nos esbarrácemos ou cruzássemos os olhares, era para eu esperar a ação dele, para a partir daí reagir. Se ele esticasse a mão para apertar, que eu apertasse, sorridente. Se ele apenas acenasse com a mão ou com a cabeça, que eu correspondesse o gesto. E se ele fingisse que não me viu, me comportar à altura, também fingindo que não o vi.

E essa dica, segundo ela, não valeria apenas para ex-pacientes fujões, mas para todos os pacientes. Se por acaso ocorrer um encontro inesperado com o paciente em uma festa de casamento, em um velório ou em um debut, por exemplo, não aja, apenas reaja. Esteja aberto para corresponder da melhor maneira possível, para deixar o outro a vontade, porque tem paciente que adora falar para todos que está fazendo terapia, que acha isso chique. Outros já têm vergonha de serem rotulados de doidos, ou tem uma natureza mais reservada mesmo. Por isto, comportamentos diferenciados para fantasias diferenciadas.

E esta foi a minha lição do dia.

Minha professora é sábia. Uma diva da psicanálise. Quando eu crescer eu quero ser igual a ela. Só que rico e bonito. Até a próxima, pessoal!

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