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Como sofre o estudante de psicologia

quinta-feira, dezembro 18, 2014Roberth Moura







Um texto elaborado sobre as minhas doces lembranças (ou nem tanto) da época da graduação. Sim, senhores, já faz uma semana que eu sou psicólogo. Deliciem-se com mais uma peripécia psicológica!




O labor nosso de cada dia

Era só eu sair com a camisa do estágio escrito “Psicologia – Univale” que sentava alguém do meu lado para tirar casquinha. Afinal, uma consultinha grátis, ali, dando sopa, quem não quer? Algumas vezes nem precisava estar com a camisa do estágio. Parecia que existia uma aura luminosa ao redor do meu corpo, ou uma setinha vermelha em neon piscante que indicava que eu era um ser especial, treinado para ser escutador (ESCUTA+DOR = ESCUTADOR). 

Não adiante se esconder! Eles vão te achar!

Isso sem contar os parentes. Minha prima, que vai casar no mês que vem, veio me pedir para analisar o comportamento do noivo dela, para saber se ele vai fazê-la feliz, depois de casados. “Querida, eu não tenho como saber isso. Se ele te ama, provavelmente ele vai fazer de tudo pra te ver feliz”. E ela: “Ah, mas você tem que saber, você não é psicólogo? Então!”. Coisa mais óbvia, né, gente? Ela ainda faz com que eu me sinta burro e incompetente por não saber se o futuro marido vai fazê-la feliz.

E minha cunhada, toda vez que me vê: “Seu sobrinho está impossível. Você tem que dar um jeito nele”. Aham. Na hora de fazer filho para colocar no mundo ninguém me chama para dar um jeito,  mas na hora do ‘vamo vê’, eu sou a primeira pessoa que vem à mente. Senta lá. Ainda bem que para estas situações eu tenho o código de ética que me ampara, me vetando de estabelecer relação profissional com familiar ou terceiros com os quais eu possuo vínculos sociais. #grazadeus


Além de muro das lamentações, já fui usado como interpretador de sonhos, cigano adivinho do futuro, Supernany, exorcista, conselheiro amoroso, mestre dos magos, etc. Tudo 0800. A última vez que isto me aconteceu eu estava no ponto de ônibus, voltando da coleta de dados em uma pesquisa no CAPS-AD, tarde da noite, cansado, querendo cama, mesa e banho (não necessariamente nesta ordem), quando chegam duas ditas cujas discutindo calorosamente um assunto (que eu jamais saberia dizer o que é porque eu sou uma pessoa altamente ética que não escuta conversa alheia), quando a mais velha disse “aquele rapaz ali é psicólogo, ele vai te ajudar a resolver o seu problema!”.

“Vou?” – pensei eu – “Duzentos reais a hora, gata”. Mas como viver em sociedade às vezes exige certo grau de hipocrisia – ou controle dos instintos, como os eufemistas preferem chamar (leia mais sobre isso em A Camada de Verniz) – então eu sorri e perguntei em que eu poderia ajudar. A mais jovem, então, me contou sua história. Quase uma novela mexicana.

Ela havia se envolvido sexualmente com o melhor amigo do seu pai, anos mais velho que ela, e haviam se apaixonado. Seu pai, contudo, jamais aceitaria esta situação se ele soubesse, visto que seu amigo era casado e que o pai era o homem mais bravo da região. A mãe, então, morreria de desgosto: recentemente havia descoberto um câncer e estava em fase crítica de tratamento. Mas este tal amigo do pai e a esposa já estavam há muito tempo brigados e em breve ele iria pedir o divórcio (isso é o que ele contou para a jovem). O problema que ela queria que eu resolvesse era o seguinte: como contar para os pais que estava grávida sem que o pai a matasse ou a mãe morresse.  

Ela queria que eu, com cinco minutos, resolvesse todos os problemas da humanidade. Quisera eu. Quiséramos todos nós. Para não deixar a moça na mão, eu poderia muito bem dar uma de Little Freud, dizendo que o que está acontecendo com ela é consequência de um Complexo de Édipo mal resolvido (ou Complexo de Electra, como queiram). Dizer que há resquícios do amor infantil recalcado especialmente da parte do pai, que vê a filha como sua eterna princesinha, a namoradinha donzelinha do papai, e que esta maldição hereditária só poderia ser quebrada com anos de análise.  Eu também poderia dar uma de Skinner e treiná-la para variar seus comportamentos. Quem sabe falar com os pais que sonhou que estava grávida para ver a reação deles, ou aparecer em casa com um bolo confeitado escrito “parabéns, avós!”, fazendo festa com uma bandinha de carnaval. Sei lá. Com cinco minutos de conversa, só este tipo de coisa me ocorre.


Tentei encontrar junto com ela as possibilidades reais que havia naquele momento para o enfrentamento da situação, as opções de existência alternativas ao jugo paterno. Ela, desesperada, não conseguia pensar em nada, coitada, assim, à queima-roupa. Quando ela estava a milésimos de segundos de ter um insight meu ônibus passou. O recalque retornou ao inconsciente da jovem. Ela voltou para casa com muito mais dúvidas do que antes.


Não posso fazer mais nada. A amostra grátis acabou. São ossos do ofício. 

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8 comentários

  1. Seus textos são sempre ótimos. Continue a escrever!

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    1. Muito obrigado! São comentários como o seu que me estimulam a escrever sempre! Abraços!

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    2. Eu morri de rir com um dos seus textos em que você fala sobre ter se perdido em meio a tantos nomes estranhos em um livro do "Dostô"! Aconteceu igual comigo! Hehehe.

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    3. O texto o pseudocult, kkkk. Às vezes eu começo a escrever um texto e fico meses sem terminar, até que um dia ocorre uma situação desencadeadora que me faz ir lá e terminar, como foi o caso deste.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Ótimo texto!
    Parabéns pela Graduação!
    Acredito que você será um ótimo profissional e que suas percepções bem humoradas
    ajudarão seus pacientes a tomarem melhores decisões quanto aos seus dilemas.
    Para de escrever não!
    Bjs

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  4. Muito obrigado! Com um incentivo deste, eu não vou parar de escrever jamais, rs!

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