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Letramentos sociais: a solução para os problemas da educação?

quinta-feira, outubro 09, 2014Roberth Moura


Estou lendo para o processo seletivo do mestrado um livro muito interessante escrito por Brian Street. O livro se chama “Letramentos Sociais: abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação”. Em linhas gerais, o tema central do livro gira em torno da crítica tecida pelo autor ao modelo autônomo de letramento e da proposta do uso de um modelo ideológico. 

O modelo autônomo é aquele que representa a si mesmo, como se a leitura e a escrita não fossem de modo algum ideologicamente situadas, como se fosse simplesmente natural o processo de aquisição da linguagem escrita.  Este modelo supervaloriza o letramento escolarizado em detrimento à linguagem oral ou outras formas de sua aquisição que não seja com a pedagogia. O autor acredita que engana-se quem pensa que o letramento é uma simples tarefa de aprender as habilidades de leitura e escrita, como alguns autores sugerem. Para ele, o modelo autônomo de letramento está imbuído de ideologias, onde são confirmadas relações de hierarquia, de autoridade, de poder e de controle. 
O modelo ideológico é proposto no sentido de tentar fazer com que o letramento autônomo não imponha sua identidade sobre as particularidades dos indivíduos. Segundo Street, no modelo autônomo, que é largamente utilizado pelas nossas escolas, “o aluno está aprendendo modelos culturais de identidade e personalidade, não apenas a decodificar a escrita ou escrever com determinada caligrafia” (p. 154).


O que mais me chamou a atenção no pensamento do autor foi na asserção que diz que a sociedade capitalista quer tirar a responsabilidade das instituições e colocar no indivíduo. Um sujeito que não termina o ensino médio, por exemplo, pode saber fazer várias coisas que o ensino médio jamais lhe ensinaria (carregar fardos de alimentos no supermercado ou embalar produtos, por exemplo), mas que a empresa exige que ele tenha para ocupar o emprego. Se este indivíduo não consegue o emprego porque não está, de acordo com o modelo autônomo, letrado o suficiente para isto, ele fica sem o emprego, pode enveredar-se pelos caminhos “alternativos” (o mercado informal ou até a criminalidade, por exemplo), e no fim, a culpa é dele que “não quis” completar os estudos.

O modelo autônomo é criticado porque ele faz as pessoas acreditarem que ele é o caminho para o indivíduo atingir a civilidade e a ascensão social. O autor desacredita esta hipótese e conclui que este modelo produz pessoas frustradas. Um exemplo é quando determinada pessoa faz todos os seus estudos, conclui a universidade, mas não consegue um emprego que lhe pague bem. Por outro lado, um fulano que não tem a 4ª série conseguiu fazer fortuna com a sua transportadora. Para Street, o letramento é utilizado, neste sentido, como mecanismo de controle social.


O autor sugere que, para que este quadro seja mudado, os professores são os primeiros que devem ter consciência do caráter ideológico do letramento, para a partir daí atuarem como facilitadores do acesso do aluno a esta perspectiva crítica da linguagem e aos pressupostos e relações de poder em que os modelos de letramento se fundam.

Referência Bibliográfica:

STREET, Brian V. Letramentos sociais: Abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação. Trad. Marcos Bagno. 1 ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2014. 240 p.

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