Filosofias e Reflexões Humor

Pseudocult? Eu? Não mais!

domingo, setembro 21, 2014Roberth Moura

Alguns colegas que eu tenho (leia-se “amigos-da-onça) vivem jogando na minha cara que eu adoro dar uma de ‘cultizinho’, mas que na verdade tudo isso é pose, que bem no fundo eu não passo de um pseudocult. Tudo calúnia, injúria e difamação. Só porque falo mal das modinhas do momento e gosto de músicas, filmes e livros diferentes o povo pensa isso de mim.

Banda de poprock pré-adolescente. O horror dos pseudocults.
Para falar a verdade eles podem ter um pouquinho de razão. Mas só um pouco. Eu só comecei dar crédito ao que eles diziam quando peguei um livro pra ler que eu fiquei mais perdido que cego em tiroteio. Querendo fazer as coisas diferentes demais uma hora a gente se estrepa, porque NUNCA será possível ser diferente em tudo. Eu acho que eu já falei disso na postagem Fazendo a diferença. Mas enfim, vamos ao motivo pelo qual eu estou abandonado esta ideologia contrária a tudo que é do povão.
Eu fiz uma lista dos melhores livros que eu já li, e tinha um comentário altamente crítico, menosprezando os livrinhos que essa humilde pessoa já leu, dizendo que eu ainda precisava ler muita nessa minha vida. Comprei um livro do Dostoievsky (Dostô, para os íntimos), e me perdi na trama do mundo. Quando cheguei na metade do livro não sabia quem era quem, quem tinha feito o quê. E não era só porque o livro era confuso (porque era uma história de um homem que se usurpava a si mesmo, mas que , porém, não era ele, mas sim outra pessoa idêntica a ele em tudo). Mesmo se fosse o livro mais simples dele, certamente eu me perderia. Me perdi no meio de Stanlovsy, Ivánovtchi, Golyádkin primeiro, Golyádkin segundo, Ivánovna, Pietruchka, Filíppovitch, Izmailovski, Semeónovitch...  Parei de ler o livro na metade. Daqui uns 20 anos, quando eu for uma pessoa mais madura, talvez eu possa compreender a sua essência. Quando eu era criança, por exemplo, eu estava lendo Memórias Póstumas de Brás Cubas e pulava vários capítulos, por achar a linguagem enfadonha. 10 anos depois o li (de verdade desta vez) e o achei fantástico.

O duplo (1947), de Dostoiévski. Os pseudocults têm orgasmos múltiplos, só com o cheiro deste livro. 
E o filme que eu vi não entendi nem um minuto dele? Era um filme mudo, de um dos maiores cineastas brasileiros (Limite, 1931 – Mário Peixoto). Primeiro eu assisti e depois fui ler os comentários sobre ele que não tinha nada a ver com nada. E eu me pergunto: porque é que os filmes mudos do Chaplin eu entendo e do cineasta brasileiro não? Será que eu não nasci para ser cult? Será que o vírus do povão-senso-comum-arroz-com-feijão, das pessoas coca-com-batata-frita-massa-alienada, tomou conta do meu intelecto?
Que meda.

A liquidez temporal expressa na obra de Salvador Dalí
Aí, quando eu não entendo, eu começo a pensar que ninguém entende também. Começo a achar que todo mundo está fazendo pose. Quando alguém vê uma obra de um renomado autor e começa a babar, onde eu não vejo motivo, fico pensando que a pessoa também não vê, mas para que os outros achem que ela está entendendo tudo começa a elogiar a obra. Eu acho que é porque eu já fiz isso várias vezes. Hoje eu não faço mais, porque sou uma pessoa madura e altamente esclarecida. Mas já fiz muito.
Por exemplo, se o Léo Santana escrevesse e cantasse a música “Geni e o Zepelim”, as pessoas iriam ver no youtube e achar aquilo uma coisa horrorosa, de extremo mau gosto, brega e deselegante. Mas se a música “Lepo-lepo” tivesse sido composta e cantada por Chico Buarque, ela seria ovacionada pelos defensores da “boa música” como uma crítica social da pós-contemporaneidade à ostentação desenfreada provocada pelo sistema capitalista, e seria vista como uma forma de resistência cultural à ostentação e à opressão provocada pelos paradigmas da hodierna sociedade. Certamente a composição do Chico ganharia vários prêmios nacionais e internacionais. Alguém até faria uma tese de doutorado a partir dela, discorrendo sobre coisas que nem o compositor jamais imaginaria que sua obra poderia significar. E o doutorando ainda seria aprovado com louvor, pela originalidade do tema.

Aí eu penso, o que eu vou ganhar mesmo, sendo o diferente? Depois de alguns anos de experiência da vida, a gente percebe que cada vez mais a opinião dos outros vai perdendo a importância. Eu sou o que sou e pronto. Passada a fase turbulenta da adolescência, a necessidade de se firmar enquanto sujeito junto ao outro vai se abrandando.
Mas após uma profunda análise socioantropológica eu chego à conclusão que se eu quero tanto ser diferente é porque as minhas vivências idiossincráticas me fizeram assim pensar. Ou seja, nem o fato de eu querer ser diferente vem de mim mesmo, apenas. Tem um blog que dá dica de como se tornar um pseudocult que diz: “Shopping, Malhação, SP Fashion Week... isso não te pertence. Seu estilo nasceu com você, não importa quem você imite”.  Isso significa que não existe uma autenticidade completa. Nem se eu fizer uma roupa de músculo de boi e sair por aí desfilando. Alguém já fez isso.
Desta forma eu só posso concluir que a originalidade da existência seria, então, apenas um olhar diferente, ou um modo diferente de produzir um mesmo fenômeno. Nada mais. Porque bem no fundo a essência é a mesma.  

"Meu estilo nasceu comigo. O que acontece é que as pessoas me copiam antes de eu ter as ideias. Estes são conhecidos como plagiadores precoces." (ANITTA, 2014)

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