Humor

Baba Baby

quarta-feira, setembro 03, 2014Roberth Moura



Não tem aquele menino esquisito, sarnento, da sua época de colegial que ninguém queria ficar nem perto dele? Aquele mesmo, que não aturou sua turma nem por um bimestre e pediu pra sair? Que sua turminha de amiguinhos menosprezava, chamando de “Girafa da Tasmânia”, “Vara de cutucar coco”, e você, como era bonzinho, só ria e apontava o dedo na cara dela. Xingar? Jamais! Sua mãe te educou debaixo da vara de marmelo e, por isto você nunca xingaria alguém. Deixava isso pro Armandinho, o chefe do grupo. (Você pode ler aqui que meu pai também me educou com A Vara Santa, por isto que até hoje eu sou assim). Às vezes você até ajudava a cantar a música “Bananinha pintadinha, quantas pintas você tem? Já contei noventa e nove, falta uma para cem!”. Mas, tecnicamente falando, isso não se configura como um xingamento, mas sim como uma livre-expressão cultural externalizada através da melodia popular.
E você, menina desprezível, que não quando recebeu a cartinha de amor dele, não proporcionou que os lábios dele tocassem os seus só porque ele usava “freio de burro” e você tinha nojinho. O menino até muda de escola de tão traumatizado que ele ficou. Sua asquerosa destruidora de sonhos.
10 anos depois, você recebe um convite do Armandinho, convidando toda a turma para se reunir para relembrar os velhos tempos na sua chácara nova.

Você aparece lá, na cálida tarde de verão de um domingo, e pelo visto todo mundo já chegou e está na piscina e na beira da churrasqueira. Você, barriguda, com o cabelo aquela bucha depois de 500 escovas progressivas, com cara de 50 anos por causa do seu trabalho de quase 1 salário mínimo na empresa de telemarketing fica até com vergonha de tirar a roupa para entrar na piscina. 

Ao contrário da Adorável pobreza desta pessoa que vos escreve, você se tornou pobre, porém não adorável. Você vê sentado perto da piscina um homem muito atraente. Quem seria ele? Você não está se lembrando de tê-lo visto na turma. Você então, vai lá jogar um charme, afinal desde o GV folia de dois anos atrás não sabe o que é um homem. Tem tanto tempo que já está quase ficando virgem de novo. Certamente porque você não leu as 5 dicas infalíveis de como desencalhar do Peripécias Psicológicas. E vai:
− Oi, eu sou a Juliana. Você era da nossa turma, da Escola Estadual Dr. Roberth Moura?
− Sou sim, Ju... Seu apelido era Ju, Jubinha, Jujuba, Jurubeba... Lembra de mim não?
− (seduzindo) Será? Ah... eu acho que se você fosse você teria passado na minha mão.

− Ô minha querida, você não está dando em cima de mim, está? Porque se estiver, eu quero que você saiba de uma coisa. Se cair um meteoro neste planeta e sobrar apenas eu, você e uma cabrita, eu vou preferir ficar com a cabrita. Se a cabrita morrer, eu preferiria ficar com a árvore à você. E se não tivesse árvore, eu ficaria com minha mão. E se por acaso a poeira cósmica do meteoro entrasse em contato com minhas células braçais e corroessem meus braços, eu iria preferir qualquer buraco na terra à você. Eu só pensaria a remota possibilidade de ficar com você caso tudo isso acontecesse e o único buraco que eu encontrasse num raio de 100 kilômetros fosse de um formigueiro. Porque tirando o formigueiro, o que vem de baixo não me atinge.
Jubinha fica atônita.
− E dá licença, que dá fruta que você gosta eu chupo até o caroço.
Ele dá um beijinho no ombro e fala para si mesmo:
− Arrasei, gatíssima!
E sai cantando “Baba baby” (porém, a versão da Kelly Key). Jurubeba achou que estava ficando louca e foi tomar umas jurubebas pra ver se voltava à sã consciência. Ela jamais soube que ele era o Bananinha pintadinha, aquele que por ela alimentou uma paixão recalcada na infância. 

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