Humor Peça de teatro

O testemunho do ex-gay (parte 4)

quinta-feira, maio 29, 2014Roberth Moura


Como Ivanir conheceu o caminho da luz


(Parte 1)
(Parte 2)
(Parte 3)
Ivanir: Aiê... Recalcada, mal-amada, sacudida! Pula pra próxima pergunta que quando você começa a falar espontâneo eu não gosto!
Marta Laura: Tudo bem. (revirando suas fichas) (sussurrando) Bicha arrogante.
Ivanir: Ei!!! Eu escutei isso.
Marta Laura: Isso o quê. Tá ficando doida? (sussurrando) bicha surda.
Ivanir: Ei!!!!
Marta Laura: Achei a próxima pergunta! (pose de apresentadora séria novamente) Ivanir, então depois de ser expulso de casa pelo pai você se virou em vários empregos, dentre eles o de garoto de programa e... (Ivanir levanta a mão – pedindo a palavra).
Ivanir: Só uma correçãozinha. Eu era garota de programa. GAROTA e não garoto. (orgulhoso) Vanuza era meu nome de guerra.(se dando conta da viadagem) Mas agora eu sou outra pessoa. Eu era joio e virei trigo. Eu era preso hoje eu sou livre. Tem sabor de mel.
Marta Laura: (cara de “hã?”) O quê que tem sabor de mel?
Ivanir: Meus lábios, que um dia já foram pecaminosos, mas hoje são santos e só dizem coisas boas.
Marta Laura: Falando em vida nova, conta pra gente como é que se deu a sua conversão?
Ivanir: (com tom de pregação) Bem, eu estava no fundo do poço. No mundo das drogas, da prostituição e da miséria, comendo as bolotas que eram servidas aos porcos.
Marta Laura: Que porcos?
Ivanir: Sei lá que porcos. Quando o pregador estava me treinando pra falar, eu fiz pra ele a mesma pergunta e ele disse que são porcos do sentido figurado. Mas enfim, (começa a imitar o jeito de pregadores pentecostais) e eu, ali sozinho, triste, caído, maltratado, abandonado, pensei que não tinha mais ninguém nesse mundo por mim. Aí então, tudo que vinha na minha cabeça era o pensamento de morte. O pensamento maligno de satanás que queria me ver por baixo. Prostrado. Humilhado. Então, eu saí naquela noite de janeiro de 2014 (data sujeita a alterações) vagando pelas ruas lúgubres e vazias, quando eu resolvi deitar no meio da pista e dar um fim na minha vida.
Marta Laura: (cara de interessada e pasma) E você morreu?
Ivanir: (irônico) Você sabe que meu terapeuta nunca me perguntou isso? Vou discutir isso com ele depois. (volta ao tom normal) Bom, acontece que neste momento, deitado no cálido chão negro do asfalto, de repente – não mais que de repente – eu vejo uma luz branca que ficava cada vez mais forte.


Marta Laura: Era uma resposta dos céus?
Ivanir: Não, era um caminhão vermelho que quase me matou. Fui atropelada, mas não morri.
Marta Laura: Atropelada?
Ivanir: É... Atropelada. Na época lá eu era a Vanuza. Não era eu. Era o velho homem.
Marta Laura dá uma risadinha contida e segura.
Ivanir: Bem... Não era lá grandes coisas. Assim, homem HOMEM mesmo não era não. Mas também não era mulher MULHER. Ah, não sei nem que expressão usar...
Marta Laura: (fazendo piadinha e rindo de si mesma) Então quer dizer que a velha mona já não existe mais. (não segura mais o riso e rola de rir) Me engana que eu gosto (altas gargalhadas).
Ivanir: Ei... eu ainda estou aqui.
Marta Laura: (de repente fica séria, como se jamais tivesse rido) E depois que você foi atropelado o quê aconteceu?
Ivanir: (totalmente gay) Aí, o caminhoneiro me pegou naqueles braços peludos e musculosos, me colocou junto a seu peito descamisado e suado e me levou para o hospital. Desmaiei na metade do caminho só com a emoção.... (se dando conta do tom que estava usando, engrossa a voz e corrige a postura) Mas é claro que agora isso não aconteceria comigo. Fui para o hospital e fiquei em coma durante dois dias e...
Marta Laura: Só um minutinho pra gente entender. Essa história sua está muito mal contada...
Ivanir: (em tom ameaçador, balançando o indicador no ar) A história é minha, gata. Se achar que eu tô mentindo, me processa. E se você me chamar de mentirosa em rede nacional e não conseguir provar, eu é que te processo por calúnia e difamação e te tiro até a calcinha de enchimento que você está usando.
Marta Laura fica caladinha.
Ivanir: Posso continuar?
Marta Laura diz que sim, com a cabeça.
Ivanir: Fui para o hospital e fiquei dois dias em coma. Os médicos me disseram que não tinha jeito mais pra mim. Eu iria ficar tetraplégico, cego de um olho, aleijado de um nariz, com bico de papagaio, ataque de gota, pneumonia aguda, osteoporose, esquizofrenia e cleptomania. (cara de quem contemplou a “luz”) Mas nesses dias que eu estava em coma eu entrei em contato com os espíritos fluorescentes de luz. Estes espíritos fluorescentes de luz tocaram a minha mão e me disseram que eu não iria morrer. Que era para eu voltar para a Terra, encontrar o meu caminho na luz e seguir adiante. Aí eu perguntei qual era o caminho que eu deveria seguir e o espírito respondeu (imitando o espírito, com voz benevolente)“eu já disse que é o caminho da luz. Você não escutou da primeira vez?”. Eu perguntei “Mas qual é o caminho da luz?”.  Ai ele respondeu “É aquele que brilha.”.
Marta Laura: Que resposta óbvia. Deve que era um espírito estagiário. E aí?
Ivanir: Aí uma voz estrondosa que parece que saía de todos os cantos me disse (Imitando a voz de trovão) “VANUZA!!! A partir de agora não se chamarás mais Vanuza e sim Ivanir, porquê eu te chamei dentre os muitos. Quer saber o caminho da luz? Eu vou te contar passo a passo, mas jamais deverás contar para ninguém, ou minha ira recairá sobre tu e tua descendência”. E aí eu fiquei sabendo como chegar no caminho da luz rosa pink.

Marta Laura: E como é que se chega ao caminho da luz?

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