Humor Peça de teatro

O testemunho do ex-gay (parte 2)

terça-feira, maio 13, 2014Roberth Moura

A história de como Ivanir resolveu soltar a franga


(...)

Marta Laura: Conta pra gente quando você descobriu que dar dói, mas nem tanto?
Ivanir: Bom, eu acho que eu sempre soube. Eu acho que eu nasci assim, diferente.
(MÚSICA 5 – Melodia sentimental)


Quando eu era criança eu sofria muito humilhação. A minha psicóloga me falou que eu tinha uma doença que se chamava... hã .... (tentando lembrar)...  bullying. Os meninos me desprezavam. (em tom raivoso) Recalcados! (com olhar triste e distante) As meninas é que me acolheram. E enquanto íamos crescendo, sempre saíamos juntos. Até que uma do nosso grupinho começou a implicar comigo. Pura inveja. Só porque eu tinha mais bunda que ela. Botei nela o apelido de... (MÚSICA 6 – 5ª sinfonia) (faz cara de quem vai contar o apelido mais engraçado e original do mundo) (faz aspas com os dedos:) “A desbundada”.
Marta Laura fica totalmente desconcertada.
Ivanir: Isso a gente tava na quinta série já. (cara de sacana) Depois que o apelido pegou, ela ficou com tanta vergonha que sumiu da escola. Ei... acabou de me ocorrer uma coisa! Ela era sua xará.
Marta Laura: (ainda desconsertada) Minha? Não pode ser...
Ivanir: Sua sim. Ela se chamava Marta Laura Jacinto Pinto. (reparando melhor) Nãooooo, háháhá.... Não me diga que é você é “A Desbundada”?
Marta Laura: (constrangida) Mas é claro que não! Que absurdo é este Ivanir!
Ivanir: Então levanta.
Marta Laura faz cara de “quê?”
Ivanir: É isto mesmo!! Levanta e prova pra mim que você não é AQUELA Marta Laura! (ele espera e ela fica imóvel). Vai levanta!! (ele sai do seu lugar e vai ela tentar fazê-la levantar a força). (histericamente) Levanta daí e me mostra eu tenho que saber se é você. Meu futuro depende disso!!! Levanta, Levanta, LE-VAN-TA!!!
Marta Laura: (com a bunda presa na poltrona, engrossa a voz como um homem e grita com Ivanir) EU NÃO VOU LEVANTAR DAQUI IVANIR!!!
Ivanir se assusta e volta quietinho para o seu lugar.
Marta Laura: (sorridente, feminina e simpática) Bem Ivanir, como você estava falando, desde pequeno você já sentia que uma chama, digamos, “diferente” ardia em seu peito. E sua adolescência conta pra gente como é que foi?
Ivanir: Nesta história de exclusão, bullying e tudo mais eu ia ficando cada vez mais retraído e sem amigos. Quando eu tinha doze anos eu gostava de um menino da minha sala. Ele se chamava... Vaginildo. Por ironia do destino. Logo eu gostar de algo que começa com “Vagin”. Só que naquele retraimento todo eu fiquei gostando daquele menino até a gente se formar no ensino médio. E eu, este tempo todo, retraído, massacrado, recalcado, jamais declarei a minha paixão.
Marta Laura: Que história interessante!
Ivanir: É... só que tem um detalhe. (com o olhar no infinito) A minha terapeuta me colocou para pensar comigo mesmo e fiquei na dúvida se eu gostava dele porque ele era rico e pagava meu lanche e me dava carona todo dia ou porque eu era mesmo gay. (voltando para a realidade) Enfim, no baile da formatura eu bebi demais, tomei coragem, peguei o microfone e declarei meu amor para ele, assim. Fui lá e pá. Na cara e na coragem.  Minha mãe desmaiou. Meu pai teve um ataque cardíaco. E o Vaginildo, para o meu desespero já tinha um namorado.
Marta Laura: Eu ouvi bem? Você disso NAMORADO?
Ivanir: Isso mesmo. Ironia do destino ou não, o namorado dele tinha Pinto. No sobrenome. (olhando para Marta Laura com aquela cara de desconfiado) E este rapaz, era, por sua vez, irmão daquela Marta Laura, “A desbundada” (olhando fixamente para Marta Laura). O caso é que meu pai, quando recobrou a consciência me expulsou de casa e eu tive que me virar nos empregos mais inimagináveis possíveis. A vida me fez dar tudo de mim. E eu DEI! Dei TU-DIN-HO de mim.


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