Humor Religião

Uma pequena crônica gospel

quarta-feira, março 05, 2014Roberth Moura


       A igreja está em festa, num domingo qualquer. Não há espaço nem para uma formiga, de tão lotada que está. Aleluias. E ouvem-se louvores, lindamente, em uma congregação situada em uma pequena cidade do interior das Minas Gerais. Fogo puro.

Depois de todos os louvores, chega a hora da pregação, e a pregadora começa a entregar profecia para todo mundo. O coração começa a gelar e bater a mil por hora. O único pensamento que vem é “Oh, Senhor, não permita que meus ‘podres’ sejam revelados neste momento. Eu prometo, oh, amado Pai, que eu vou mudar. Sairei daqui um vaso renovado, quebrantado e transformado. Não permitas que teu servo te envergonhe e traga escândalo para a tua casa. O que aconteceu ficará apenas entre a Silvinha e eu”. E a pregação vai fluindo, o fogo caindo.
(Só abrindo um parêntese na história, às vezes eu me pergunto por que muitos evangélicos, quando vão falar das coisas santas, só usam os pronomes “tu, vós, vossa, tua” e nunca “você”, “sua”, etc. Adoram um portuguesinho arcaico. E tantos outros gostam de criar vários adjetivos para descrever uma coisa que há muito já foi entendida: “Porque o Senhor dos Exércitos é poderoso, engrandecido, maravilhoso, Pai eterno, glorioso, santo, Pai da eternidade, louvado, enaltecido, justo, vitorioso, exaltado, santíssimo senhor.” E não é só para as coisas boas não; para as desgraças dos testemunhos também: “e eu estava lá, irmãos, caído, derrotado, massacrado, humilhado, decaído, derrubado, maltrapilho, rebaixado e oprimido pelas mãos de satanás, mas o Senhor me resgatou. Eu ouvi um Glória a Deus?”. E assim sucessivamente. Fecha parêntese).  
E a pregadora, do nada:
– Ei, rapaz, aí atrás, de camisa azul!
Mini infarto. (mais do que quando meu pai falava de manhã que "precisava acertar uma coisas comigo de tarde". Os apertos que eu já passei com meu pai você pode ver em A vara santa!") 
– É tu mesmo, de camisa azul, calça preta, cabelo encaracolado. Eu tenho uma palavra direta do céu para ti! Eu tenho visto o que tu tens passado!!!
“Ai meu Deus! É agora!”
Eike medo!
– Coisas que ninguém sabe, eu sei! Porque eu estava lá!
O medo de ser descoberto publicamente faz o coração saltar pela boca: “Senhor, eu sou teu, minha vida é tua! Eu prometo pagar meu dízimo!”
– E te digo mais! Aquele dia, que achavas que ninguém via, eu vi e vou te falar e É AGORA!
“Por favor, não, Senhor! Eu dou 30 por cento do meu salário de dízimo se livrares teu servo da vergonha eterna!”
– Te tirei do lamaçal do pecado! E tu serás alguém nesta vida se me ouvirdes. E quando choraste sozinho pelas madrugadas, eu vi! Eu estava lá! Jamais te deixei e jamais te deixarei! Receba e toma posse!
Aaaaahhhhh... Obrigado, pai celestial.

10 dias depois, dia de pagamento. O salarinho de estagiário cai na conta. Momento de tirar os 30 por cento prometidos, pelas vergonhas livradas. Se não tirar, o devorador vem e come tudo. Ele é pervertido todo, altamente malévolo. Mas as contas são tantas que surge a necessidade de negociar com Deus. Nesse momento todo mundo vira advogado e procura brechas na promessa com um fervor intenso:


“Senhor, eu prometi devolver o dízimo? Prometi. Disse que daria dízimo de trinta por cento do meu salário? Certamente. Tu sabes melhor que eu. Mas, para começar, a segunda promessa é auto-contraditória e não se sustenta. O dízimo é a décima parte de algo. Logo, trinta por cento do meu salário se configura como um trízimo e não dízimo, fazendo, assim, a promessa cair por terra. Bem, a primeira promessa não possui descrição temporal. Deste modo, eu devolverei o dízimo deste mês – e somente deste mês. Como tu sabes, oh, pai, eu estou devendo a minha vizinha que vende Jequiti e meu gás está quase acabando. Deste modo, este mês eu darei a ti uma parte e outra no mês que vem. Tu és o dono do ouro e da prata e não precisa de merrequinha minha. Mas promessa é promessa. Sei que não preciso falar mais nada pois tu és onisciente e  conhece-me mais do que a mim mesmo. O Senhor é lindo, papai! I love you!!”.

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3 comentários

  1. ri alto...ainda bem que tô sozinha no escritório! hahahahahahah

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  2. kkkkkkkkkkkkk. Eu fazia essas mesmas promessas quando a professora de matemática sorteava um aluno para ver as tarefas de casa.

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  3. ai meu Deus, como eu tinha medo kkkkkk da profeta revelar tudo kkkk

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