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Brasilidade, sim senhor!

sábado, março 22, 2014Roberth Moura




Uma historinha para iniciar nossa discussão.

Agenor tem uma formatura para ir em outra cidade, distante da sua. O problema é que são quatro dias de festa e o pobre do Agenor terá que faltar pelo menos dois dias ao trabalho. E se faltar, além de ter parte do seu mísero salário de estagiário cortado, poderá sofrer advertência e ainda perder dois dias do seu precioso vale transporte. Mas Agenor é brasileiro e tem uma ideia que acredita ser brilhante: curtirá todas as noites de festa loucamente e, quando voltar, pedirá um atestado de doença a um médico, amigo de sua namorada. Dessa forma ele não perderá seus dias cortados e nem sofrerá nenhuma penalidade. Quando voltar, basta que faça um pequeno teatro e ninguém jamais descobrirá sua artimanha.

– E aí, você já está melhor?
– Ah... Bom de tudo eu ainda não tô não... Mas eu acho que hoje já tá bem melhor. Este final de semana eu quase morri. Você não tem noção...



Histórias deste tipo são muito mais comuns do que possamos imaginar: “Recebi troco a mais da mulher do supermercado! Kkkkk aquela trouxa!”; “consegui vender minha moto com o motor estragado pelo dobro do que ela valia!”; “Fui para o carnaval em Búzios e emendei quinta e sexta. Quando eu cheguei, falei pra minha chefe que eu não tinha encontrado passagem e fiquei de boa!”; “Ei, turma, eu nem me importo se vocês estão conversando porque o meu salário está caindo lá todo mês”; “Pagar imposto de renda pra quê se eu sei que ele vai direito para o bolso dos políticos? Eu vou declarar só metade do que eu ganho.”; “Pode deixar comigo! Eu tenho um colega que é promotor. Ele vai falar com o juiz e vai passar o seu caso na frente”; “Eu vou mudar meu título de eleitor para uma cidadezinha pequena, porque lá tem um vereador que está dando 100 reais quem votar nele”; “Mãe, os xerox deste mês na faculdade vão dar trezentos reais no mínimo!”; "Amiga, você pode assinar a lista de presença pra mim amanhã? Não vai dar pra eu vir à aula..." e assim sucessivamente. Já relatei aqui no site um texto que fala da venda de vagas de medicina em universidades, que também trata da questão da cultura da ‘honestidade’ brasileira.

Lembro-me de uma novela que eu assisti no canal viva, que no início apresentava-se muito didática e partia do questionamento “vale a pena ser honesto no Brasil?”. O próprio nome da novela já responde a questão:


O que me incomoda é que estas mesmas pessoas vem reclamar da corrupção, da lavagem de dinheiro, dos deputados que vão trabalhar uma vez por mês, do presidente desonesto, da falta de ética e moral na política do país.

Troque todos os governantes por novos. Acabaria a corrupção? Tenho quase certeza que não. Se a cultura arraigada em boa parte da população é de tirar proveito de todas as situações em benefício próprio, toda vez que surgir a chance de passar a perna em alguém, isto será executado. O pensamento que impera é “se eu não pegar, vem outro e pega.”. E assim vamos construindo o futuro da nação.

Na televisão pessoas honestas, que devolvem coisas que acharam na rua e que são dos outros, são retratadas como heroínas, quando na verdade esta prática é que deveria ser a corriqueira. Sendo assim, será que podemos esperar por dias melhores? São esses valores que queremos passar para nossos futuros pimpolhos? Esta moral tão plástica, no fundo, nos traz algum benefício?

Estas são algumas questões que eu deixo. Reflita. Dialogue. Transforme.

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3 comentários

  1. A pior pobreza que existe é a de espírito. Vou relembrar uma pergunta feita pelo jornalista Juan Arias em um jurnal europeu especializado em matérias sobre o Brasil: Por que os brasileiros não ocupam as praças para protestar contra a corrupção e os desmandos? Não saberiam reagir à hipocrisia e à falta de ética dos políticos? Será mesmo este um país cujo povo tem uma índole de tal sorte pacífica que se contentaria com tão pouco? Quem poderá responder essa questão? Uma coisa é certa: 'Não se constrói uma grande nação com qualquer povinho'. O brasileiro precisa crescer moralmente até chegar o dia em que haverá intolerância generalizada às barbáries que hoje vemos ser tratadas com naturalidade.

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  2. Caro Odacyr; Li sua biografia e já sei que você é um cara com um nível de educação formal acima da média. A forma como escreve também testemunha a seu favor como uma pessoa de bastante tirocínio. Vejo um ponto discrepante: você também é vítima de uma mentalidade que insistem em nos enfiar goela abaixo: a de que o povo brasileiro é corrupto e nossos políticos são uma amostragem da sociedade. Que nossa moral é amoral e por isso não podemos mudar o poder, pois todos agiriam da mesma forma.
    Ninguém percebe que são falácias cunhadas por detentores do poder e que, repetidas à exaustão tendem a virar profissão de fé?
    Nosso sistema político é viciado, nós escolhemos mal os políticos pois sempre o sistema nos empurra os mesmos candidatos, dominado que é pelos caciques dos partidos.
    Quando uma pessoa é glamourizada por ter feito o que é certo, é uma manipulação midiática para nos dar a entender que ela é uma ilha e que, contrario sensu, o restante é desonesto.
    Não é. Olhe a sua vizinhança, olhe dentro da sua família: se destacam poucos desonestos e amorais. A maioria é gente de bem, que devolve o troco a mais e respeita o próximo.
    A mídia tende a distorcer isso, dando destaque a corrupção e a falta de moral.
    Nossas eleições são nebulosas, as negociatas existem em todos os níveis de governo. O cidadão comum não reage por que está anestesiado por um estado de calamidade em que a mesma mídia que manipula a todos (a serviço do status quo dominante) o convence de que não existe solução.
    Digo isso por que seu artigo - muito bem escrito, por sinal - sem querer, acaba por contribuir para perpetuar essa falácia.
    Em tempo: reforma educacional de base é o que esse país precisa. Somente com educação de qualidade as pessoas poderão questionar as idiossincrasias que os governantes insistem em nos empurrar garganta abaixo. Todo o resto deriva da educação mas, pergunto: a quem interessa?

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    1. Sou obrigado a discordar sobre uma parte do seu comentário, Caio.

      Bem, é claro que o povo brasileiro, de modo geral, pode ser sim honesto. Acredito em você. O que eu quero dizer - e que eu vejo na prática todos os dias - é que estas pessoas honestas, às vezes cometem atos desonestos. Eu escrevi sobre isso na postagem abaixo:

      http://www.peripeciaspsicologicas.com.br/2014/06/os-crimes-nossos-de-cada-dia.html

      Nela eu falo dos crimes nosso de cada dia. Pessoas comuns, como eu e você que praticamos a desonestidade todos os dias. Não vou contestar que o meu discurso esteja eivado desta mentalidade deturpada, porque estou inserido em uma sociedade em que este discurso impera e não existe ser no mundo que seja completamente desalienado. Porém, as minhas conclusões são reforçadas pelo que eu vejo o povo brasileiro fazer todos os dias. Eu falo de mim mesmo, que me considero uma pessoa honesta e estava à procura de uma pessoa para me dar uma força na seleção de mestrado que eu estou tentando. Ou seja, quase um tráfico de influência.

      Entende o que eu quero dizer? Não tenho parâmetros para comparar a relação entre o Brasil e outros países porque eu nunca viajei, mas o fato de grande parte dos brasileiros serem honestos não impede que os atos de desonestidade se manifestem.

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