Opinião e Atualidades Política e Economia

Venda de vagas na universidade: uma questão ética

sexta-feira, janeiro 31, 2014Roberth Moura



Atualmente temos motivos relevantes para nos preocuparmos com a falta de ética e honestidade no Brasil, uma vez que presenciamos em nosso país uma degradação moral acelerada nas relações políticas, jurídicas, comerciais, sociais, familiares etc. No entanto, quando isso ocorre no âmbito dos três poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário), gerando a corrupção, a reprovação social é maior, pois o agir eticamente e com honestidade é de suma importância para o exercício da função pública, esta compreendida não somente em relação aos servidores públicos, mas também aos agentes políticos (senadores, deputados, vereadores, membros do Judiciário e do Ministério Público). Nesse sentido, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu como um dos princípios da Administração Pública o princípio da moralidade. A Lei n.º 9.784/99, por sua vez, consagrou o princípio da moralidade administrativa, preconizando que ela significa atuação segundo padrões éticos de probidade, decoro e boa-fé.


Todavia (não é de hoje), tem se ouvido falar muito em venda de vagas em Universidades públicas – o que tem se tornado cada vez mais evidente. No site de comunidades virtuais, InForum, pode-se observar a que ponto esta falta de ética pode chegar:

O nosso serviço é seguro e realmente garantido, temos como fazer a sua entrada na universidade por meio de propina paga diretamente para quem realmente pode agilizar este serviço, mande um e-mail para sistemavagas@hotmail.com dizendo a sua cidade e a instituição de seu interesse, em seguida te retorno com os procedimentos e detalhes sobre o serviço (VAGAS, 2010).

Infelizmente, a desonestidade e a falta de ética é um problema endêmico na cultura atual. Por isso, é importante a reflexão sobre tais virtudes, a fim ser combatida a imoralidade e a desonestidade em todas as relações humanas e a corrupção em todos os setores da sociedade.  Vivemos em mundo dinâmico, proporcionado pelas descobertas científicas e inovações tecnológicas, principalmente após a II Guerra Mundial, as quais pretendem, em tese, garantir mais satisfação e felicidade ao ser humano. Contudo, a evolução científica e tecnológica não pode resolver o problema ético e moral, pois esse não é o seu objetivo.

A honestidade deveria fazer parte do caráter de todo indivíduo e de qualquer instituição humana. Entretanto, a desonestidade, a imoralidade e a corrupção estão assombrando nosso país, trazendo grandes preocupações e insegurança diante da transparência do projeto de sobrevivência e perpetua a cultura do favorecimento e da vantagem, da confraria dos homens notáveis, da corrupção, qual seja, a perpetuação da malandragem.

Essas atitudes nefastas geram a suprema perversão dos valores sociais, econômicos, jurídicos e políticos de uma sociedade, proclamados como legítimos pela sociedade e pelo Estado. Elas são uma forma cruel de abuso do poder, pois o agente público usa o poder que lhe foi conferido para servir a seus próprios interesses ou de outrem, de forma ilegítima e subversiva. Elas formam uma força destruidora da ordem social e dos mais elementares princípios éticos e legais. Além disso, tais atitudes podem tornar-se a moral estabelecida, a ponto de gerar nos cidadãos o conformismo com o mal social e, pior ainda, o espelhamento nesse tipo de conduta.

Se há quem compre vagas em uma cadeira universitária, há certamente quem venda. Quem esforça-se de verdade para conseguir, fica em segundo plano. Isso, quando chega a ter oportunidade de competir com os outros. As instituições públicas acabam tornando-se particulares, pois entra quem tem dinheiro pra comprar o gabarito. Logo, este tipo de ação acaba tornando-se normal e as pessoas vão cada vez mais se conformando que esse é o caminho certo, que quem tem dinheiro e poder pode estar sempre por cima e que a igualdade e a ética na prática só existem utopicamente. E assim vamos cada vez afundando mais e mais. Alguns relatos  de vendedores:


(clique na imagem para ver as letras grandes)







Relatos de compradores (clique na imagem para ampliar):




Fontes:


A história recente de nosso país tem nesse ponto um dos maiores desafios a enfrentar. Os cidadãos, as instituições, as entidades de classe e os poderes responsáveis devem reagir ativamente contra a corrupção, e os responsáveis serem punidos observando os seus direitos constitucionais. Caso contrário, o país avançará rapidamente para a desagregação. Indignar-se, resistir e combater a corrupção é um dos principais desafios éticos dos poderes constituídos e da sociedade.

Na página da Ajufe Associação dos Juízes Federais do Brasil lemos a notícia de que Ajufe propõe campanha nacional corrupção, destinada a sensibilizar a população a respeito do tema, tendo se reunido com parlamentares da Frente de Combate à Corrupção. Por outro lado, no mês de junho de 2011, os jornais estamparam resultado de pesquisa, feita pelo instituto Census, dando conta de que o que mais envergonha o brasileiro hoje é a corrupção (mais de 40%), seguindo-se a violência.

E é por isso que Bobbio, refletindo a relevância da lucidez de que a sociedade em que vivemos é pluralista, aponta a existência de três fatos que estão presentes na sociedade atual que nos fazem olhar com mais atenção ao pluralismo:

(...) nossas sociedades são sociedades complexas. Nelas se formaram esferas particulares relativamente autônomas, desde os sindicatos até os partidos, desde os grupos organizados até os grupos não-organizados, etc. Em segundo lugar, uma preferência: o melhor modo para organizar uma sociedade desse tipo é fazer com que o sistema político permita aos vários grupos ou camadas sociais que se expressem politicamente, participem, direta ou indiretamente, na formação da vontade coletiva. Em terceiro lugar, uma refutação: uma sociedade política assim constituída é a antítese de toda forma de despotismo, em particular daquela versão moderna do despotismo a que se costuma chamar totalitarismo (BOBBIO, 2000, p.16).

Sem dúvida, é preciso que haja no Brasil uma reação ética dos cidadãos conscientes de sua cidadania; uma reação contra a corrupção, para que seja efetivamente construída uma sociedade livre, justa e solidária, um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, tornando de fato o Brasil um país de todos.

Considerações finais

            Embora esse sistema de vendas de vagas em universidades do país seja de execrável execução, a sociedade por sua vez, tem sua parcela de responsabilidade nesta situação, pois não se mobiliza para exercer os seus direitos e impedir estes casos vergonhosos de abuso de poder. Um dos motivos para esta falta de mobilização social se dá devido à falta do desenvolvimento de uma cultura cidadã, ou seja, a sociedade não exerce sua cidadania.

É claramente perceptível a falta de respeito ao padrão moral, implica, por conseguinte numa violação dos direitos do cidadão, comprometendo inclusive, a existência dos valores dos bons costumes em uma sociedade. A aética na Administração Pública – em especial nas camadas mais altas -  encontra terreno fértil para se proliferar, pois o comportamento de autoridades públicas estão longe de se basearem em princípios éticos e isto ocorre devido a falta de preparo dos funcionários, cultura equivocada e especialmente, por falta de mecanismos de controle e responsabilização adequada dos atos antiéticos.


A educação seria o mais forte instrumento na formação de cidadão consciente para a construção de um futuro melhor. No âmbito Administrativo, funcionários mal capacitados e sem princípios éticos que convivem todos os dias com mandos e desmandos, atos desonestos, corrupção e falta de ética tendem a assimilar por este rol "cultural" de aproveitamento em beneficio próprio.

O Estado, que a princípio deve impor a ordem e o respeito como regra de comportamento para uma sociedade civilizada, é o primeiro a evidenciar o ato imoral. A consciência ética, como a educação e a cultura são assimiladas pelo ser humano, assim, a ética na administração das universidades públicas, pode e deve ser desenvolvida junto aos agentes públicos ocasionando assim, uma mudança na gestão dessas universidades que deve ser sentida por quem procura pelos serviços prestado, garantindo assim direitos e deveres iguais a todos, inclusão e acima de tudo a valorização do outro enquanto ser humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOBBIO, Norberto. Teoria Geral de política: a filosofia política e as lições dos clássicos. Rio Janeiro: Elsevier, 2000.
BOFF, Leonardo. Ética e moral: a busca dos fundamentos. Petrópolis: Vozes, 2003
CHAUÍ, Marilena. A existência ética. In: Convite à Filosofia. 13ª ed. 2ª impr. São Paulo: Editora Ática, 2004.
RACHELS, James. Os elementos da filosofia da moral. São Paulo: Manole, 2006.
SIQUEIRA, Sueli. O trabalho e a pesquisa científica na construção do conhecimento. 2. ed. Governador Valadares: Ed. Univale, 2005. 204 p.

Notícias extraídas de:

MILÃO, Fátima. Venda de vagas para a faculdade de medicina. Campinas: OLX, 5 jan 2011. Disponível em . Acesso em 2 de dezembro de 2011.
VAGA, Sistema. Vendade vagas na universidade sem se preocupar com o vestibular. Brasil: InForum,  2009. Disponível em <http://adult.inforum.insite.com.br/79337/#msgs>  Acesso em 2 de fevereiro de 2014.


You Might Also Like

2 comentários

  1. Tudo o que foi exposto! As assertivas da matéria realmente condizem com a realidade!! Quadrilhas super organizadas se formam a cada dia para burlar as leis e conseguem fazer muito bem seus trabalhos desonestos!! Esse sistema de questões de múltipla escolha precisa ser revisto! Muita gente acaba tendo acesso aos gabaritos e conseguem aprovação facilmente se tiver grana pra pagar! Isso ocorre em concursos, vestibulares e outros do tipo! PARABÉNS PELA MATÉRIA!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado. Infelizmente essa é a realidade do Brasil.

      Excluir

Flickr Images

Formulário de contato