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Bullying – relato de experiência

sexta-feira, dezembro 13, 2013Roberth Moura




Fui convidado a participar de um documentário sobre bullying, por um produtor da UFRJ. E, como exercício da recordação eu pensei que seria bom escrever algo sobre, para forçar a memória a se lembrar dos eventos ‘traumatizantes’ que eu passei na minha infância em ambiente escolar. Contar para as outras pessoas também é um exercício da cidadania, porque alguém pode ter passado (ou ainda esteja passando) por uma situação semelhante e pode não saber o que fazer para sair dela.

Quem me vê hoje, pode pensar que eu jamais sofri bullying em toda a minha vida. Talvez porque eu seja uma pessoa com elevada autoestima e humor onipresente. Ou talvez porque eu nunca desabafei para ninguém. E agora eu vou desabafar para o mundo.

Bom, na escola meus apelidos eram vários. Viado, gay, bicha e inúmeras variações neste sentido. Também existiam alguns que frisavam defeitos físicos: nariz de tacho, baleia, lancha (por causa do pé grande), ladrão de oxigênio (por causa do nariz grande), etc.. E o interessante é que o mesmo grupinho de 4 ou 5 garotos que colocavam estes apelidos em mim também colocavam também em grande parte da sala. Alguns deles: mamãozuda (para uma colega que tinha seios grandes), quatro-olhos (para uma colega que usava óculos), macaco (para os colegas negros), vara-pau (para os muito magros), dentre outros.


Eu me lembro, que quando eu estava no pré-escolar, eu tinha muito medo um colega na época. Ele era um dos que mais implicavam comigo. Um dia, ele faltou à aula e eu sentei no lugar que ele costumava sentar, que era na frente (quem sentava na frente pegava merenda primeiro na hora do recreio). Só que ele não havia faltado à aula, mas sim atrasado um pouco. Não me recordo bem onde a professora estava (lembro-me do perfume dela até hoje, mas não lembro onde ela estava neste momento. Acho que tinha ido ao banheiro), mas ele começou a querer me tirar à força do lugar. Como eu não aceitei, porque os lugares não eram fixos, ele me empurrou e começou a me bater. Eu revidei, mas eu apanhei. A professora chegou e nos separou. Esta foi a primeira e única vez na vida que eu briguei.

Depois que passei para o ensino fundamental a coisa ganhou proporções maiores. As provocações não eram todos os dias; só aconteciam quando havia ocasião. Humilhações em público que inflavam o ego dos agressores e que, muitas vezes, eram interpretadas como algo da idade. E não é. Tinha, na 5ª série, uns dois colegas que eu morria de medo de me bater. Era um tal de Silvano do quenta-sol de cima (uma favelinha da cidade) e um tal de André do quenta-sol de baixo. O André porque ele batia nas pessoas que não fizesse as coisas do jeito dele. O Silvano porque tinha cara de mafioso e só de me olhar eu gelava. E, observando a situação agora, eu percebo o quanto eu era frágil. Os meninos não me batiam. Só usavam as palavras. Palavras que doíam muito mais que um soco na boca do estômago.

Perdedor / Valentões

Este período da 5ª até a 8ª série foi o de maior intensidade do bullying comigo. Tanto, que eu, nas minhas peripécias de pré-adolescente pensei em várias coisas para tentar evitar ser humilhado publicamente de novo. Já pensei em ser reprovado para mudar de turma, pensei em mudar de cidade (porque na minha só tinha uma escola), e, em alguns momentos mais desesperadores já pedi a Deus até para tirar a minha vida.

Um dos mecanismos de defesa que eu utilizava era, cada vez que um episódio de bullying se repetia, planejar vinganças (sanguinárias às vezes) que jamais foram realizadas. Pensava em pegar os agressores e bater e bater até ficarem inconscientes. Também já pensei em humilhá-los de tal forma para que eles se sentissem como eu. Já tentei fazer com eles o mesmo que faziam comigo só que eu acabava sempre perdendo.


E nessas repetidas provocações, você acaba acreditando que ninguém te ama. Meu pai, quando ficava sabendo de algum dos episódios de humilhação que eu havia passado dizia “conta para a professora”. Ou às vezes, quando eu contava pra ele que os meus colegas estavam me provocando ele dizia “xingar não arranca pedaço. Se vierem te bater você corre. Quando um não quer, dois não brigam.”. Eu penso que ele não tinha noção da dimensão do problema.
Alguns professores me defendiam, quando eles ficavam sabendo. Eu era um dos melhores alunos da escola e a maioria dos professores gostava muito de mim. Mas também existiam outros poucos professores que ignoravam. Eu tinha medo de ir até a direção da escola reclamar, mas já fui umas duas ou três vezes dar queixa dos meus agressores. O supervisor ou diretor dava uma dura nos alunos (às vezes até com suspensão), que ficavam mansinhos algumas semanas, e depois, lentamente, voltavam a fazer as mesmas coisas.
Um detalhe que me chama a atenção é que quando estávamos fora do ambiente escolar, estes mesmos agressores me tratavam normalmente. A cidade era pequena e nós nos esbarrávamos em todas as esquinas. E eu fazia de tudo para ser amigo deles, para que as humilhações cessassem.  Mas não adiantava: parece que eles ganhavam coragem para fazer coisas que não teriam coragem de fazer sozinhos quando nos encontrávamos em ambiente escolar. Freud explica isso em seu texto Psicologia das massas.


A minha sorte é que eu consegui superar estas dificuldades sem entrar em maiores complicações. Conheço histórias muito mais pesadas que a minha e outras tantas mais leves. Todas causaram sofrimento. E por mais que pareça que a gente tenha superado, sempre há um resquício, por menor que seja. Uma fenda, bem no fundo da alma que nem o tempo é capaz de curar.


Leitura recomendada

Bullying:Provocações sem limites – Análise do filme que trata a temática de maneira natural e atual. Mostra o lado perverso do bullying e suas terríveis consequências.

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