Contos Cultura

A muié do homi

sexta-feira, janeiro 10, 2014Roberth Moura



Cada pedaço branco da folha configura-se como um infinito de possibilidades.
(Odacyr Roberth, 2014)

Qualquer semelhança com a realidade NÃO é mera coincidência. 
Especialmente se você for de Minas Gerais. 
Especialmente se você morar em São José da Safira.

A muíe do homi

A mulher classe C, após cinco anos completos de seu segundo casamento registrado em cartório, já começa a falar sozinha pelos cantos, reclamando da vida, de Deus e do mundo enquanto limpa a sua casa, prepara sua comida, alimenta toda 'criação' e varre o seu espaçoso quintal.


– Eu virei escrava nesta casa. Parece tentação do bicho. Toda hora que eu olho pr’aquele tanque tem vasilha suja. Eu posso ter acabado de lavar que eu viro as costas, aparece copo sujo de café. E se perguntar quem foi, pode saber que não foi ninguém. O inimigo é terrívi. Parece que ele vem lá dos quintos dos infernos pra beber café aqui em casa e sujar meus copos. Só pode.
Mas ela reclama sozinha é o dia todo. É sua autoanálise. Freudiana total. Só que em tempo integral.
– E esta casa que não para limpa? Passei pano hoje cedo e agora de tarde parece que passou uma boiada vinda do brejo. ÔÔÔ A-É-CIOOO!!!!! CADÊ A CONTA DE LUZ QUE EU GUARDEI NESSA GAVETA?
Eu já paguei amor.
– Pois é. Cê sabe que tem que pagar e guardar no mesmo lugar. Deus do céu, esse homi num faz nada certo. Eu tenho que resolver tudo sozinha. E ele fica lá, o dia todo murungado. Não dá opinião de nada também. Tudo que a gente faz tá bão pra ele.  Toma um prumo na vida! Toma iniciativa das coisas, homi!
Antes, ela morria de medo de casar e perder a pensão do seu primeiro e falecido marido. Mas o amor foi mais forte e fez valer a pena arriscar. Grandíssimo amor. Ou medo de ficar velha e sozinha.

Nessas cidadezinhas do interior de Minas, os aposentados e pensionistas junto com os funcionários da prefeitura são os únicos combustíveis para os motores da economia local. E quem tem uma pensão dessas tem status. Essa simplória cinquentona mineira, mãe de cinco filhos, poderia muito bem pagar uma empregada, porque uma das boas custaria ¼ do seu salário por mês. Mas ela quer economizar, porque tem que pagar o mascate cearense a sétima das 36 prestações do tapete genuinamente indiano - garantido por ele - que ela adquiriu para colocar em sua sala. Também tem o cobertor que ela comprou no inverno que custaria 400 reais à vista ou em 15 vezes de 45.

"Ah, bobo, eu vou comprar parcelado, porque assim eu consigo controlar minhas continhas.".

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Em uma gloriosa manhã de verão lá está ela, em sua labuta diária, jogando água no chão da casa, esfregando a vassoura para tirar uma mancha imaginária, que só ela vê. Vai para o banheiro, joga sabão em pó da melhor qualidade, água sanitária, cheiro de pinho e esfrega com tamanha sofreguidão como se aquilo fosse a última coisa que ela faria no mundo. Quando de repente ela olha para a porta e vê, olhando fixamente para ela seu amado esposo, com cara de cachorro pidão.
– O quê que foi Aécio?
– Nada não amor.
Mas continua com a cara de ‘quero alguma coisa’.
– Eu sei muito bem o quê que cê quer. Tá querendo cagar.
Continua imóvel.
– Eu sei que é. Mas isso é muita tentação na minha vida. Todo dia é a mesma coisa. É só eu começar limpar o bendito do banheiro que ele chega aqui querendo fazer merda.
Mesmo com Aécio perto ela fala como se estivesse falando sozinha. Ou com uma terceira pessoa invisível. Talvez uma entidade superior que ninguém conhecia. Se investigassem a fundo, poderiam até descobrir um início de esquizofrenia paranoide altamente delirante e loucamente alucinógena. E ela continuava:
– Se eu ficar uma semana sem limpar o banheiro, ele fica uma semana sem cagar. Se eu limpar o banheiro três vezes no dia, três vezes as lombriga ataca. Eu não mereço isso, bobo. Entra aqui e faz logo o quê que cê tem que fazer.
– Precisa não amor. Pode terminar aí. Não tô querendo fazer nada não.
– Tá querendo sim. Eu te conheço! Anda logo, Aécio! Passa pra dentro! Vem cá cagar.
– Não, amor... Depois eu vem. Tô aqui só reparando sua beleza.
– Eu te conheço Aécio!!!
– Eu tem dó de cagar no banheiro limpinho amor. O banheiro tá tão cheiroso... deixa que eu vem depois.
Aécio sai.  Ela começa a gritar, enfurecida.
– É todo dia a mesma coisa. Eu num guento isso mais não. Eu já tô cansada! Quer saber de uma coisa, gente? Se ele não entrar nesse banheiro agora e num fazer essa merda de bosta dele, eu vou pegar um sabugo de mio e infiar até o talo que nunca mais ele vai fazer essas coisa comigo.
Aécio ficou tão traumatizado que nunca mais cagou em toda sua vida.


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