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Necrofilia, pseudonecrofilia e perversões sexuais

domingo, novembro 17, 2013Roberth Moura

Meu professor de psicanálise passou um trabalho sobre perversões sexuais e meu grupo ficou com o tema “Necrofilia”. Eita tema difícil de encontrar coisas a respeito. O que se encontra na internet são definições e exemplos. Nenhum artigo científico que tratasse especificamente da necrofilia em português na famosa base de dados SciELO. Tampouco no Google Scholar. O que se achava era apenas sobre perversão de modo geral. O único caminho à vista era apelar para a Wikipédia para darmos corpo ao trabalho.
Mas eu fui mais forte e resisti ao caminho mais fácil. Resolvi, então, buscar em sites em inglês. Aí encontrei material. Para sintetizar o material que encontrei tanto em livros clássicos da psicanálise, nos artigos em inglês e em sites e blogs resolvi escrever este post. Deliciem-se. (Ou não).




Segundo Freud (1972), do ponto de vista psíquico, as perversões sexuais não são bestialidades nem degeneração, tal como a sociedade de sua época acreditava. Elas estão contidas na predisposição sexual não diferenciada da criança. Quando alguém se torna manifestadamente perverso, pode-se dizer, mais especificamente que ele permaneceu assim; isso significa uma interrupção na evolução da sexualidade.
Para a psicanálise, os desvios com relação ao objetivo sexual podem ocorrer de duas formas:

Ø  Transgressões anatômicas: Quando há uma supervalorização do objeto sexual que gera ultrapassagem das forças inibitórias (repugnância, pudor e moral). Isso faz com que, às vezes, o indivíduo até chegue a renunciar o ato sexual, fixando-se até mesmo nos objetivos preliminares para obtenção do prazer.

Ø  Parada em certas relações intermediárias

Criança perversa?


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Ok. Para muitas pessoas isto que Freud disse até agora tem a mesma clareza de 无为之道。面包用玻璃纸胶带. Vou tentar deixar um pouco mais claro.

Quando nascemos somos puro ID. Isso significa que tudo o que fazemos deriva de nossos instintos. A pulsão, que é nossa fonte de energia psíquica, ainda não foi canalizada pela educação, cultura e os valores do nosso contexto social. Por isto, ela busca satisfação por todos os lados possíveis. Assim, Freud afirma que toda criança é polimorfo perversa, o que não significa de modo algum que ela seja perversa. Significa que ela pode experimentar prazer em todas as partes do corpo de todas as formas possíveis, justamente por não ter passado por esta modelagem social.

Para ficar mais claro o conceito da criança polimorfo perversa, imagine uma criança de dois anos sentindo prazer em brincar com seu cocô no chão da casa ou até mesmo em comê-lo. Ou então enfiando a caneta no canal anal do seu animalzinho de estimação. Ou te dando tapa na cara e arranhando seu rosto. Ou fazendo milhares de outras coisas socialmente aversivas. É exatamente isso.

Criança que comeu o que não devia...


Nas transgressões anatômicas o indivíduo vai, inconscientemente, através da supervalorização do objeto sexual, ultrapassar estas forças inibitórias e, por isto, não irão aceitar a forma “normal” de se fazer sexo, buscando satisfação através de outros meios nada convencionais.
Na parada em certas relações intermediárias o indivíduo, por algum motivo, irá “travar” em determinada fase do desenvolvimento sexual, regredir para a fase anterior (cujo desenvolvimento se completou) e fixar ali seu objeto de amor.

Nesta perspectiva, uma pessoa pode se tornar necrófila, por exemplo, se ela está em determinada fase do seu desenvolvimento sexual e sua querida avó morre, ou perde um animal de estimação, ou ela assistiu algum desenho em que seu personagem favorito morre (enfim, as possibilidades são infinitas quando se trata da construção psíquica do sujeito, podendo ser até uma coisa que pareça simples para quem vê de fora). Isso significa que a sexualidade desta pessoa irá regredir ao estágio anterior, e que ela pode fixar a “morte” como seu objeto de amor. Posteriormente, na fase adulta, poderá utilizar fazer sexo com mortos para sentir que, de alguma forma está dominando e vencendo a morte. Ou que por ela amar a morte, a morte também a ama e por este motivo, ela não irá morrer. Ou até mesmo por vontade de morrer. Isso vai depender da de como cada um introjeta e representa estes estímulos externos.

Bom, descrita como se dá a construção psíquica da necrofilia vamos à sua definição de acordo com os manuais diagnósticos psiquiátricos. Para o CID 10 ela se encaixa no F65.8 “Outros transtornos da preferência sexual”, que incluem diversas outras modalidades da preferência e do comportamento sexual tais como o fato de dizer obscenidade por telefone, esfregar-se contra outro em locais públicos com aglomeração, a atividade sexual com um animal, o emprego de estrangulamento ou anóxia para aumentar a excitação sexual, etc.. Ou seja, a necrofilia não se constitui como um transtorno específico.

       Já para o DSM-IV a necrofilia está incluída em “Parafilia Sem Outra Especificação”. Esta categoria é incluída para a codificação de Parafilias que não satisfazem os critérios para qualquer das categorias específicas. Incluem-se aqui a escatologia telefônica (telefonemas obscenos anônimos), necrofilia (cadáveres), parcialismo (foco exclusivo em uma parte do corpo), zoofilia (animais), coprofilia (fezes), clismafilia (enemas), urofilia (urina), entre outras.

       Necrofilia deriva do grego. “Nekros” significa “morto”, “cadáver” e “filía” significa “amor” ou “desejo”. Parafilia também, sendo que “para” quer dizer “fora de”. Logo conclui-se que parafilia é o desejo ou amor fora do considerado normal. Necrofilia, por sua vez, é o desejo ou amor por cadáveres.

Revista americana direcionada ao público necrófilo.


O artigo “Sexual Attraction to Corpses: A Psychiatric Review of Necrophilia” divide a necrofilia em três tipos:

Ø  Necrophilic Homicide: Esse tipo conhece alguém somente para matar e depois praticar sexo com o cadáver.
Ø  Regular necrophilia: Procura cadáver para atingir o orgasmo. Pode invadir cemitérios, hospitais ou ate mesmo funerárias. O que interessa é o tesão sentindo por penetrar o corpo gelado e sem vida.
Ø  Necrophilic fantasy: É o tipo que apenas alimenta fantasias, mas nunca praticou o ato sexual com cadáveres e provavelmente nunca chegará a fazê-lo. Tem prazer em apenas imaginar fazer sexo com o morto. Muitas vezes recorre a vídeos ou fotos de mortos na internet.

       Existe também um caso especial conhecido como pseudonecrofilia. O pseudonecrófilo possui uma transitória atração por um cadáver, mas defuntos não são objeto de suas fantasias sexuais. Ele prefere o contato sexual com parceiros vivos. Como exemplo, o artigo cita o caso de um rapaz que estava voltando do bar com sua namorada em um carro, quando foram abordados por uma pessoa aparentemente perigosa do lado de fora. Este rapaz pegou sua arma para atirar, mas por fatalidade acabou atirando em sua namorada. No desespero de tentar esconder o corpo, ele sentiu-se sexualmente excitado. Como não tinha nada para aliviar sua excitação, ele fez sexo com o corpo sem vida de sua namorada. Ou seja, seu ato se configura como uma pseudonecrofilia, justamente porque ele não busca cadáveres para sentir prazer. Não passou por aquela construção psíquica de perversidade da qual falamos anteriormente. O que aconteceu foi um fato isolado, um caso transitório.

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Eu acho que eu já falei demais. Resumi ao máximo que pude. Espero que possa servir para alguém se informar melhor sobre o tema. Ah, e se algum psicanalista por acaso passar por aqui e quiser dar alguma contribuição, fique à vontade. Para um aluno do 8º período de psicologia é sempre bom aprender. O power point que eu fiz a apresentação está disponível para download no link abaixo:




Como citar este artigo:


SILVA, Odacyr Roberth Moura da. Necrofilia, pseudonecrofilia e perversões sexuais: algumas considerações. Governador Valadares: Peripécias Psicológicas, 2013. Disponível em: <http://www.peripeciaspsicologicas.com.br/2013/11/necrofilia-pseudonecrofilia-e.html>. Acesso em: 09 jul. 2014.


Referências Bibliográficas:
CID-10: classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde. 5. ed. São Paulo: EDUSP, 1997. 3 v.
FREUD, Sigmund. Dora. In: Cinq Psychoanalyse. Paris: PUF, 1972. p. 1-91.
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre sexualidade. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. 3. ed. Rio de Janeiro: Imago; 1990. 
JORGE, Miguel R (Coord.). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-IV. 4. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. 845 p. 
Rosman, Jonathan P., and Phillip J. Resnick. Sexual Attraction to Corpses: A Psychiatric Review of Necrophilia. Bulletin of the American Academy of Psychiatry and the Law 17 (1989):153–163.


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4 comentários

  1. Ficou muito bom o texto, bem explicativo. Dentro do meu "achismo" acredito que as vezes exista um vislumbre maior da coisa, um significante maior, alem do ato sexual em si, alem do morto, o proibido, o socialmente não-aceito e como citado vencer a morte ou subjugar a mesma. Uma super valorização do significante em cima do sujeito, ou da circunstancia.

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    1. É verdade. O assunto dá para discutir por páginas e mais páginas. A construção psíquica é complexa demais para resumirmos em um texto, apenas.

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    2. Na formulação lacaniana, a perversão é colocada em termos estruturais e não como um desvio em relação a uma norma:

      http://ceccarelli.psc.br/pt/?page_id=181

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