Ótica Psicológica

DOIDO DEMAIS: a psicologia, a loucura e suas manifestações

segunda-feira, novembro 25, 2013Roberth Moura




Nada sei o que me acontece, mas me desligo. Perco o contato com o que está ao meu redor. Sempre tive o hábito de falar sozinho, quando estava só, mas bastava a proximidade de alguém para eu parar. Só que semana passada me peguei em plena Avenida Paulista discutindo acaloradamente com minha mulher em voz alta. De pronto me apercebi do que estava fazendo, quando vi que um monte de curiosos me olhava com olhar zombeteiro. Estava só, no meio da multidão.
Foi como se despertasse de um sonho.
Então compreendi que havia enlouquecido.
(Depoimento de HB, um homem de 40 anos, passando por uma intensa crise de angústia)


Pare um segundo. Com os conhecimentos que você já tem, tente responder “o que é loucura?”. Ou melhor “O que é ser doido?”.
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 Quando as pessoas me paravam na rua e me perguntavam “e aí, que curso cê tá fazendo?” eu enchia a boca para dizer “Psicologia!!!!”. Aí a pessoa respondia, em tom desanimador “Ih... vai mexer com doido.”. Aquilo era um balde de água fria que apagava o ardor da minha existência. Reduzia meu objeto de estudo ao doido. Sequer imaginava que poderíamos nós trabalhar em empresas, escolas, hospitais, Tribunais de Justiça, clínica, Delegacias especializadas, Polícia Federal, Previdência Social, dentre muitas outras áreas. Até psicólogo do Clube Atlético Mineiro eu poderia ser, só para jogar na cara da pessoa que doida é ela que não caça meio de dar um jeito na vida.
E nessa tentativa de libertar-se do estigma mostrando à sociedade leiga que o psicólogo sabe fazer muito mais coisas do que tratar de doido, muitas vezes deixamos de criar espaços onde a loucura possa ser dialogada.  É com o objetivo de refletir acerca da loucura que este artigo foi produzido. O conteúdo para embasamento teórico foi extraído do livro “O inquilino do imaginário” de Emílio Romero (2001).

         Então vamos lá. Se eu perguntasse para a minha mãe, neste exato momento “o que é ser doido?” ela me responderia que “doido é quem atira pedra, come bosta e rasga dinheiro.”. Será mesmo? Corriqueiramente costuma-se classificar como louco, pessoas que apresentam comportamento bizarro, com roupas, gestos e atitudes esquisitas. Mas isso não serve como justificativa, pois existem muitos doidos que são quietinhos, arrumadinhos e bem comportados. E você jamais saberá que eles são loucos.

         Por outro lado, a loucura também pode ser costumeiramente interpretada como uma incapacidade do indivíduo a adaptar-se à realidade social, o que levaria o mesmo a romper-se com esta realidade tão cruel.
Mas nem o comportamento bizarro nem a divergência com os padrões dominantes são suficientes para rotular determinada pessoa como louca. Veja estas fotos abaixo. Você classificaria estas pessoas como loucas pelo seu comportamento?



Drag queen

Mulher vampiro

Punks

Isobel, mulher mais tatuada do mundo

Pois bem. Se a sua resposta foi SIM você está enganado. Redondamente. Comportamentos e estilos esquisitos podem se configurar como sinais de loucura, mas não se configuram necessariamente como loucura. Para estar certo de que se é louco, faz-se necessário examinar as vivências dominantes que caracterizam o mundo do sujeito. E isso, se impõe fazer em uma avaliação clínica da pessoa.

Mas de onde vem a loucura?

Várias linhas teóricas tentam explicar a origem da loucura, cada uma pelo seu ângulo de visão. Falarei resumidamente sobre as que mais se destacam, sem discuti-las, por falta de espaço:
Ø  Para os organicistas a loucura deriva de fatores biológicos que afetam o cérebro do doente, levando-o a uma incapacidade para processar adequadamente os diversos dados da realidade e provocando deficiências nas funções psíquicas gerais (memória, raciocínio, sensopercepção, etc.). Há loucuras que são claramente de base biológica como as psicoses orgânicas (causadas por um traumatismo craniano ou um AVC, por exemplo) e as tóxico-infecciosas (causadas pelo uso exacerbado de substâncias psicoativas). Já outras, como a esquizofrenia, a gênese não é nada conclusiva.

Ø  Para os psicanalistas o que ocorre é o predomínio do Id sobre o ego, pela emergência de pulsões e de vivências reprimidas que entram em colisão com as demandas sociais provocando perda da realidade. Traduzindo, a loucura seria o resultado entre o conflito do “Eu” e o mundo externo, e o vencedor seria o Id, o lado instintivo do homem, de onde emergem as pulsões. Pode-se dizer, em outras palavras, que por motivos diversos, a realidade apresenta-se de maneira cruel e pesada demais e a maneira que o indivíduo consegue elaborar psiquicamente este conflito entre seu eu e realidade é rompendo com o mundo externo.

Ø  Para alguns pesquisadores da estrutura e dinâmica familiar, o doente seria o fio mais fraco na trama conflitual que perturba os pais (patologia parental). A rica conflitiva familiar seria a responsável pelas constantes vivências que caracterizam o mundo do esquizo. A principal característica do esquizo é a falta de reconhecimento de si. Esta falta de reconhecimento adviria, principalmente da falta de reconhecimento dos pais: a indiferença, a rejeição, a transferência excessiva de problemas para o filho, etc.

Romero entende loucura como um refúgio no imaginário, quando a realidade resulta para o sujeito completamente intolerável. Seria uma forma de compensar um ambiente sentido como inóspito e hostil, perante o qual o sujeito experimenta seu abandono e indigência originárias. E para finalizar, faz a seguinte parábola, extraída do dito popular:

“O neurótico constrói castelos no ar sem tentar nunca neles morar, o louco inventa igualmente castelos no ar para ele habitar”.


Isso significa que os dois tipos alimentam fantasias insustentáveis, incompatíveis com o princípio de realidade. O neurótico (ou seja, a maioria de nós) constrói o seu castelo na imaginação, mas o usa apenas como alívio parcial das suas dores. O psicótico, ao contrário, usa estes castelos como residência fixa.

Quem, alguma vez na vida, por exemplo, nunca se imaginou ser o melhor do mundo em sua área profissional, ganhar milhões e ser famoso? Todavia, sabe que isto é apenas imaginação. Se você fosse um psicótico você SERIA um profissional famoso e bem sucedido, independente do que as pessoas dissessem para você.

O louco vive o imaginário como real até com mais intensidade que as situações objetivas e concretas, dependendo do grau de loucura. Para termos uma ideia disso, imagine quando você sonha. Na maioria esmagadora das vezes você não sabe que aquilo está acontecendo apenas na sua cabeça: você sente medo, amor, frio, calor, tristeza... Nesse sentido, os sonhos podem ser considerados amostras grátis de psicose.

Se observarmos crenças e práticas culturais muito distantes da nossa podemos classificá-las equivocadamente como sintomas de loucura. Um muçulmano que aceita entrar em um avião e se matar, um índio que adora uma árvore, ou um indiano que adora vaca são claros exemplos disso. Da mesma forma que um turista que nunca ouviu falar do cristianismo chega em uma igreja pentecostal no Brasil em dia de “fogo”, pode achar que todo mundo é louco.

Índios adorando árvores. Loucura?

Só para concluir (até porque o texto já está grande demais), na grande maioria das vezes as ideias e fantasias delirantes são individuais, exceto raros casos. Crenças e representações compartilhadas socialmente não são sintomáticas em si, embora vistas de fora do sistema possam parecer absurdas. Deste modo conclui-se que, para a pessoa ser considerada louca é necessário analisar sua existência e identificar se existe coerência de sua crença com a que seu grupo social compartilha. Caso contrário, tudo não passará de mera especulação.
E para fechar, um vídeo para se ter mais clareza de como os sintomas de perda de contato com a realidade se manifestam:


 



Referência Bibliográfica:

ROMERO, Emílio. O inquilino do imaginário. 3ª ed. São Paulo: Lemos Editorial,2001. 

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