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E aí, vai formar quando?

terça-feira, setembro 24, 2013Roberth Moura



É impressionante. Toda vez que eu vou para a minha cidade natal (muito bem descrita nas imagens disponíveis em Welcome to Safira City), ou quando eu encontro alguém que não me vê há muito tempo, aqui mesmo em Governador Valadares, as pessoas me abordam invariavelmente com uma pergunta: “E aí, rapaz lindo, inteligente e mente aberta, você já formou?”. Minto, há sim algumas variações na pergunta, como “E aí, vai formar quando?”. 



     Ok, pode tirar a parte do lindo, inteligente e mente aberta. Eu sei que as pessoas pensam isso, mas elas são contidas demais para dar este tipo de demonstração pública de sinceridade. É como eu escrevi anteriormente em A camada de verniz. Só que ao contrário.


Lá na minha cidade tem um senhor, que toda vez que nos encontramos a estrutura do diálogo (animado e originalíssimo, por sinal) é mais ou menos a seguinte:
- Falta quanto tempo ainda pr’ocê formar?
- Falta um ano e meio, Sô Jão*.
- Nossa, que bênça num é minino? Eu sempre falo cum seu pai que minino bão iguali ocê é difícil da gente achá. Eu falo cums meus minino “estuda seus poiquêra, se não cês vai tudo ficá morreno de ruim iguali ieu.”. Mar num adianta; os poiquêra qué ficá o di’intirim na disgrama do preisteixi. Ês num vê a dificulidade que a gente passa pra consigui as coisa.¹
- Pois é, né, Sô Jão. Pega com Deus, bobo, que tudo vai dar certo.
- É mermo meu fi. Eu quiria pagá uma facudade de médico pru meu minino mais véi, mas diz que o trem é caro dimais. Seu pai me falô que ocê tá formando pra ser doutô, né?
 - Mais ou menos, né Sô Jão (se fosse outra pessoa eu responderia “não necessariamente”, e explanaria toda aquela teoria de que só é doutor quem tem doutorado, que esses medicozinhos tudo que ele conhece aí tem é uma graduaçãozinha porqueira. E olhe lá. Mas eu não sou tão mal quanto pareço e falei só isso mesmo). Eu vou ser psicólogo.


- Cês mexe cum o quê mermo?
- Nós trabalhamos com o comportamento humano em suas múltiplas facetas: comportamentos desadaptativos, crenças cristalizadas, o processo de idiossincrasia e subjetivação dos indivíduos face à cultura estigmatizante, o encontro de si na trama do mundo, a promoção do insight em sujeitos perigosamente alienados, os mecanismos sob os quais funciona todo o aparelho psíquico, em especial o inconsciente humano, as psicopatologias provocadas pelo advento da pós-contemporaneidade e por aí vai...
Mentira. Eu não falei isso. Eu só pensei. Falei só até a parte do comportamento humano e dei alguns exemplos do senso comum como a elaboração do luto, crianças com dificuldade de aprendizagem, perícia criminal (que é minha área), psicólogo organizacional e outras mais próximas da realidade dele, para ver se ele conseguia me compreender. Eu acho que compreendeu. Ou não. Agora é tarde.
Enfim, passemos para o próximo caso.
Tem uma mulher lá, mãe de uma amiga minha, que trabalha na prefeitura. Aí sempre quando ela me vê ela me diz “Odacyr, quando você formar, eu vou arrumar um emprego pra você aqui, viu? A cidade precisa muito de psicólogo!”.

Meu coração até gela. 

Não que eu não queira voltar para a minha cidade. É claro que eu a amo acima de todas as outras. Mas e meu mestrado, doutorado, pós-doutorado e essas bubiças tudo, onde é que ficam? Mas eu também não quero magoar a moça, dizendo que eu não voltarei para a pequena, porém singela São José da Safira tão cedo. Talvez, quando eu me aposentar eu volte para lá. Nossa eu vou parar de escrever isso. Vai que eu não passo no mestrado e que o destino me faça "pagar língua" fazendo de lá a minha única opção de vida?

Enfim, o futuro a Deus pertence. Paremos de conjecturá-lo e vamos levando a vida do jeito que dá...


Notas do Autor
*Sô Jão (Seu João) é um nome fictício. Fiquei com medo da filha dele (que fica o dia todo na bendita da novela) lê isso aqui e querer me processar, por isso mudei o nome.

Notas do tradutor:
¹ Nossa, que bênção não é menino? Eu sempre falo com o seu pai que menino bom igual a você é difícil da gente achar. Eu falo com meus filhos “estuda seus porqueira, se não vocês vão ficar todos morrendo de ruim, assim como eu.”. Mas não adianta; os porqueira querem ficar o dia inteirinho na (xingamento) do Play Station. Eles não veem a dificuldade que a gente passa pra conseguir as coisas.

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