Ótica Psicológica

Migração internacional de retorno e o estranhamento do emigrante retornado em relação à família [A migração internacional, o retorno e a reinserção do emigrante retornado no seio familiar (Parte II)]

quinta-feira, agosto 01, 2013Roberth Moura



Se você caiu direto nesta página, clique no link abaixo para ler a primeira parte do texto:



(...)

Neste diapasão, a família, à medida que o tempo passava com a ausência física do pai e do marido, criava mecanismos para se relacionar à sua maneira, na sua nova organização. Quando este emigrante retorna, estes mecanismos tendem a sofrer alterações drásticas, pois ele quer retomar também o lugar que antes possuía dentro da sua família.

É interessante notar que a família passa por, basicamente, três momentos distintos: 1º a família que existia antes da emigração; 2º a família que se constitui com a ausência do pai e do marido; 3º a reconstituição familiar quando este emigrante retorna. São diferentes momentos de adaptação sofrida pela família.

Emigrante retornando ao Brasil
A partir de 2008 pôde-se perceber o grande contingente de emigrantes que retornaram à sua terra natal. Boa parte destes retornos tiveram como estopim a crise econômica que assolou os Estados Unidos e a Europa neste período. Contudo, há emigrantes que afirmam que os Estados Unidos, mesmo em crise, estava bem melhor que o Brasil em termos de qualidade de vida. Isto revela o quanto ainda o Brasil deve caminhar para curar suas mazelas sociais.

Retornando para casa após 5, 10, 15 anos, o emigrante, muitas vezes não reconhece a família que outrora o deixou esperando. Um sentimento de estranhamento toma conta de seu ser a ponto, até, de ele se perguntar “Meu Deus, quem são estas pessoas?”.

Por um lado, existe uma parcela de emigrantes que afirmam que não estranharam a família no seu retorno. Atribuem este não estranhamento ao constante contato mantido com a família pela internet e por telefone. Estes muitas vezes, ligavam todos os dias e em alguns casos, várias vezes ao dia. Contudo, há de se notar que este modelo não é o que acontece de maneira geral.

Na maioria das vezes, o que ocorre é o estranhamento apenas nos primeiros meses. O emigrante não reconhece as relações que estavam estabelecidas antes da partida e que, no seu retorno, assumiram novas facetas. Além de tudo, estranha sua cidade, sua rua, e reclama dos buracos, do trânsito, muitas fazendo comparações o tempo todo sobre os prós do país de primeiro mundo e os contras do Brasil. Muitas famílias de emigrantes retornados reclamam desta constante comparação e isso, não raras vezes, ocasiona ainda mais atrito entre os componentes da família como “ah... se lá é tão bom assim e aqui é tão ruim, por que você não volta pra lá?”.
Os relatos indicam que nos primeiros dias, e até nas primeiras semanas, tudo é festa, tudo é diversão. Conforme vão se somando as semanas e a vida cotidiana voltando ao normal, o emigrante retornado quer reassumir o seu papel de “homem da casa”, sua função paterna, papeis este que, na maioria das vezes, foram transferidos para mãe e/ou para outros parentes mais próximos. Há uma grande dificuldade de ele entender que a família mudou; a mulher está mais empoderada, seus filhos não são mais crianças e estão muito mais autônomos que outrora; a situação em que a família se encontrava obrigou-a a se tornar assim. 

Por outro lado a família também deve entender que o emigrante também sofreu mudanças significativas durante sua estadia no exterior. Sua ida, muitas vezes ilegal, pelo deserto correndo risco de morte, ou passando privações para conseguir economizar algo para voltar logo para casa, seu sentimento de solidão e a saudade em um país completamente desconhecido, podendo ser a qualquer momento ser pego e deportado... para voltar e ser recebido como um agregado no interior do sistema familiar...

Mas, como relatava anteriormente, estes atritos familiares decorrentes do fenômeno migratório, em grande parte das vezes, são abrandados com o tempo. Isto ocorre porque no início os componentes da família acreditam que vão se relacionar com aquele pai, ou aquele filho que eles conheciam antes da emigração. Para que todos reconheçam que os outros estão mudados e não são mais os mesmos, leva tempo.

Contudo, ainda existe uma minoria que, mesmo com o tempo passando, não consegue restabelecer a relação com a família. Há afirmações de que o estranhamento do retorno é tão grande que o emigrante sente-se como um estranho no ninho, como se outras pessoas estivessem vivendo no corpo das pessoas que aqui ele havia deixado. Nestes casos, há indícios de que a relação familiar antes da emigração já apresentava deficiência. Muitas vezes o pai exercia um papel dominador e opressor dentro da família e a ida dele para o exterior proporcionou a “libertação” da esposa e filhos; ao retornar o emigrante, querendo reassumir o comando vê-se sem poder algum sobre os outros membros da família. Assim, ele sente-se impotente e sem nenhuma utilidade para a família – deste caminho até a separação, uma gota d’água seria necessário para desmoronar o castelo de fantasias acerca da família criadas pelo emigrante para aliviar seus sentimentos de solidão no exterior.


De tudo isto conclui-se que a emigração pode trazer tanto consequências positivas quanto negativas para os envolvidos. Se por um lado ela possibilita a realização do sonho de uma melhor condição financeira, de maior poder aquisitivo e de melhor qualidade de vida, por outro, tal qualidade se torna questionável no campo psicológico e afetivo.

O certo é que com o retorno desses emigrantes a família já não se configura mais como antes e o estranhamento sentido por todos que fazem parte deste processo pode muitas vezes desfazer o sentimento de pertencimento que havia entre eles: o emigrante é um membro da família que muitas vezes se encontra, ao retornar, numa posição insustentável dentro do sistema de fantasia familial.



Percebe-se que no retorno, a potencial garantia dos vínculos relacionais aportados pela família em situação de readaptação só é passível de otimização caso seus membros sujeitem-se a contínuos acordos e negociações interindividuais. É possível concluir que apesar da maioria dos emigrantes fantasiarem a imagem da família que haviam deixado na origem, o restabelecimento do relacionamento familiar, na maioria das vezes, ocorreu quase sempre com os papeis e funções reformuladas.
Os dados em números desta pesquisa você pode encontrar em:


BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:

SIQUEIRA, Sueli. Sonhos, sucesso e frustrações na emigração de retorno: Brasil/Estados Unidos. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2009.
______. O sonho frustrado e o sonho realizado: as duas faces da migração para os EUA. RevistaNuevo Mundo Mundos Nuevo. 07 de junho de 2007. Disponível em: . Acesso em 12 de março de 2013.
PATARRA, N. L. Movimentos migratórios internacionais recentes de/para o Brasil e políticas sociais. In: SERVIÇO PASTORAL DOS MIGRANTES. (Org.). Travessias na de$ordem global: Fórum Social das Migrações . São Paulo: Paulinas, 2005. p. 355-380.
PINTO, Juliana Vilela. As representações do fenômeno migratório na mídia impressa valadarense. 2011. 217 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Vale do Rio Doce, Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Gestão Integrada do Território, Governador Valadares, MG, 2011. Disponível em :< http://www.pergamum.univale.br/pergamum/tcc/Asrepresentacoesdofenomenomigratorionamidiaimpressavaladarense.pdf >. Acesso em : 24 abril 2012.
SILVA, O. R. M. ; MAFRA, V. A. S. O. ; TORRES, M. L. C. ; DIAS, C. A. . De volta à terra da fantasia: a reconstrução da intersubjetividade familiar do emigrante retornado. In: XX Seminário de Iniciação Científica da UFOP, 2012, Ouro Preto. Anais do XX Seminário de Iniciação Científica da UFOP. Ouro Preto, 2012.
SILVA, O. R. M. ; VICENTE, P. S. ; SOARES, M. M. ; DIAS, C. A. . Fatores intervenientes sobre o processo de emigração internacional. 2012.

You Might Also Like

0 comentários

Flickr Images

Formulário de contato