featured Filosofias e Reflexões

A adorável pobreza

segunda-feira, julho 08, 2013Roberth Moura


O tema é: ser pobre, mas feliz.


Depois que me mudei da pequena cidade de São José da Safira – MG para a não tão grande, todavia, nem tão pequena Governador Valadares – MG passei a me dar conta do quão socioeconomicamente hipossuficiente eu sou.
Traduzindo, eu sou pobre.

 
São José da Safira [4 mil habitantes - no máximo (na verdade, sendo muito otimista)]

X

Governador Valadares (275 mil habitantes)

Bem, não é que Safira seja um mundo mágico onde brota leite e mel, e o dinheiro rola solto. Não é necessariamente assim. Mas acontece que lá eu não me sentia pobre. Lá eu não necessitava de carro para andar, embora nós tivéssemos. Lá eu não precisava usar roupas caríssimas porque ninguém usava roupas caríssimas. Também não invejava o gramado verdinho do vizinho simplesmente porque o vizinho nem tinha gramado para eu invejar. De uma maneira ou de outra, todos estávamos em um nível não tão abaixo e nem tão acima dos outros.

Chegando em GV City só o complemento do meu endereço já dava indícios do que vinha por aí: Rua Caio Martins, FUNDOS, B. Desse endereço até a faculdade, meia hora no ponto de ônibus, mais meia hora de ônibus. Quem tinha carro era 10 minutos. Mudei para perto da faculdade, mas isso não diminuiu nada a minha (sensação de) pobreza. Fui até o Perigo (da série “Todo mundo odeia o Cris”) e comprei uma bicicleta de 30 reais (obviamente sem fazer perguntas de qualquer natureza).


I'm singing in the rain
Certo dia, voltando para casa de bicicleta, uma chuva vem misteriosamente, do nada, com uma força tremenda, como se fosse a última vez que passaria por este mundo e bate na minha cara singelas gotículas de felicidade pueril. Para disfarçar a pobreza, comecei a cantar Sing in the rain e pensar “agora eu sou o Gene Kelly”. Estava até começando a gostar daquilo quando vem o ônibus, naquela velocidade, joga lama que trespassa a minha existência e atinge até na minha 5ª geração. Só não transcrevo o meu pensamento daquele momento porque seria deselegante por demais. Esse foi o dia em que eu mais amaldiçoei a pobreza e toda derivação advinda da mesma.




É interessante notar que em um lugar onde a maioria do seu círculo social possui carro e você não, você se sente pobre. Em um lugar onde ninguém tem carro, inclusive você, você se sente igual. Se boa parte dos seus amigos viaja para a Europa nas férias e você não, provavelmente vai sentir-se mal por não poder viajar. Se todos ou a maioria dos seus amigos  sequer saiu do estado você não pensará que é pobre.
Essa é a chamada pobreza relativa comentada por Foster (1998). Para ele, a pobreza, como total de recursos de um indivíduo, é função não somente do seu padrão de vida, determinado pela renda (linha de pobreza absoluta), mas também de sua posição relativa na população (linha de pobreza relativa). Ou seja, você tem o necessário para subsistir, mas não possui os meios necessários para viver de acordo com a sociedade onde está inserido, nem com pessoas de status social comparável.



Você deseja ter uma bolsa de grife não porque ela lhe apetece, mas porque ter bolsa de grife é ter status junto a seu círculo social. Já escrevi uma postagem sobre ilusões mercadológicas em Bolsa de grife. Você poderia muito bem ir para a faculdade de bicicleta todos os dias. Como diria meu pai "isso num vai quebrar seus osso". Mas como a maioria da população vai de carro, você também sente a necessidade de ter carro. E assim sucessivamente.


Dessa maneira, a solução possível para aplacar esse sentimento de pobreza provocado pelo capitalismo feroz seria ir procurar minha turma da classe C e D. Talvez se eu fizesse só amigos na classe E, F e G eu me sentiria rico perto deles. Isso não seria de todo uma má ideia.



Mas e a faculdade? Se eu quero estudar para (possivelmente através disso) subir na vida, enfrentar as vicissitudes da vida faz-se necessário. O negócio é exorcizar todos os ‘Tom Ripley’, ‘Rubi’ e ‘Maria de Fátima Almeida Roitman’ que existem dentro de nós. Como diz a letra da canção, vamos “viver e não ter a vergonha de ser feliz”!



Referências Biblioigráficas

Foster, James. Absolute versus Relative Poverty. 1998. The American Economic Review, 88, n° 2.



You Might Also Like

12 comentários

  1. Gostei muito desse texto, parabéns.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito Obrigado Fabi's! Fique à vontade para ler outras peripécias do blog!

      Abraços!

      Excluir
  2. A linguagem empregada no texto me cativou, gostei muto da relatividade da pobreza, isso se vê claro quando temos uma renda "média" e saímos de um bairro "rico" para um "pobre", logo ao chegar no bairro pobre não nos sentimos mais na obrigação de ter status.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado Luciano! Este foi um texto que saiu do âmago do meu ser, rs. Espero que leia outros e aprecie tanto quanto este!

      Excluir
  3. Excelente articulação contextual, Odacyr. Particularmente, achei brilhante a sua forma de referir-se às intercorrências comuns de uma "adorável pobreza", sempre alternando entre uma linguagem culta e uma linguagem de menor esmero.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado, Mica! Transitar entre a linguagem formal e informal é um artifício que eu utilizo para que o texto seja acessível a todo tipo de público, sem perder a minha essência...

      Excluir
  4. Texto extremamente bem escrito e cativante! Parabéns!

    ResponderExcluir
  5. Ótimo texto! É difícil encontrar algo pra se pensar na internet...

    ResponderExcluir
  6. Bacana, muito criativo, parabéns!

    ResponderExcluir
  7. Uau! Adorei esse texto e um outro sobre feiúra parabéns pela escrita e associações engraçadas! Ri e refleti muito.

    ResponderExcluir

Flickr Images

Formulário de contato