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O gigante, de fato, acordou?

segunda-feira, junho 24, 2013Roberth Moura


Quem está acordando é a geração que está na rua. Que estava como zumbi na frente de um computador.
Dizer que o Brasil estava dormindo é ingenuidade. Quantas manifestações de professores, profissionais de saúde, polícias, os próprios jovens cobrando meio-passe, os movimentos LGBT pelo fim das discriminações contra a diversidade tivemos nos últimos tempos.
O atual movimento precisa dar o próximo passo. Quem diz que ele é apolítico está redondamente enganado ou tentando enganar. O movimento é eminentemente político. Pode se apartidário, "contra todos" é o mote.

Mas, dizer que é contra tudo é o mesmo que ser contra nada. Esta na hora de, como todo movimento político, dizer a que veio mostrar as propostas para acabar com "tudo que está errado". Senão, a apropriação por fatores externos será fatal. Haja vista que o legítimo protesto está sendo manipulado por baderneiros de plantão. 

Tem em mente que o M15 (Espanha) começou com protestos contra a falta de perspectivas devido a recessão. O desemprego entre os jovens beirava os 25%. Por ser contra todos os partidos permitiu a ultra-direita ganhar as últimas eleições. Resultado: com a continuação da aplicação das receitas neoliberais (desculpe pelo chavão, é só para resumir) o mesmo índice hoje está em mais de 50%.
Também, ao dizer que é contra tudo, corre-se o risco de ser contra os avanços também.
Estamos longe do ideal. Minha imagem para atual situação: Estávamos no fundo do poço com merda até o nariz há 12 anos. Hoje continuamos no poço, mas com merda no calcanhar.

Ou seja, o Gigante começou a despertar há alguns anos. Melhor, começou a se levantar, pois antes estava de quatro literalmente. Agora temos o respeito do mundo. O complexo de vira-latas aos poucos vai nos deixando.

Pode-se criticar a velocidade do avanço, prioridades mas, negá-lo, só posso entender como ignorância ou má-fé. Acredito que seja mais por ignorância mesmo, pois o governo federal é muito fraco no quesito comunicação. Como a nossa mídia assumiu a oposição (palavras da presidente da ABI), ela só mostra os defeitos.

Mantendo a imagem acima em mente: 

Ø  Em 12 anos se construiu mais universidades do que nos 100 anos anteriores. Não estou dizendo que assim os problemas de educação estão resolvidos. Eu sei, prédio não educa. Mas, a educação não se faz em praça e jardim (acho até que deveria também ser feita em praça e jardim), mas usa salas de aula e laboratórios. FIES, ciência sem fronteiras (Também sei: tem aluno só fazendo turismo. Não só o político é corrupto), etc.
Ø  Começou-se a investir em infraestrutura* Estamos com falta de mão de obra (educação falha) ao contrário do desemprego galopante, por exemplo, na Europa e Estados Unidos.
Ø  Correndo o risco de ser apredejado, mas fatos/números são fatos/números: a corrupção está sendo combatida. Um dia chegaremos a um nível civilizado de corrupção. A Polícia Federal bate em Chico e Francisco. Portal da Transparência Federal. Milhares de funcionários públicos sofrendo processos.
Ø  Temos total liberdade de expressão pelo governo federal, que é limitada somente pela vontade do dono do jornal, que não admite o contraponto, só o pensamento único oposicionista.
Ø  Diminuição da desigualdade com milhões de pessoas saindo da pobreza para um nível menos selvagem de vida.

Nem sei se vale a pena discutir a questão dos programas tipo bolsa família, pois a maioria dos argumentos contra que tenho ouvido é baseado em preconceito e ojeriza a pobre. O grande empresário pode receber bolsa BNDES. O rentista pode receber o bolsa juros-mais-alto do planeta. 
Mas quem está na miséria, passando fome não pode receber um centavo do "bolsa-esmola". É um projeto assistencialista? Só aparentemente. Quem tem fome não pode esperar mudanças estruturais acontecerem. Vai criar vagabundo? Vai. Meia dúzia. "A mídia não divulga" que 1,6 milhões de pessoas devolveram o cartão de bolsa família só este ano por não precisarem mais dele. Nem que existem condicionamentos para o recebimento do mesmo: manter os filhos na escola, comparecer a posto de saúde, etc.


Meu medo de que o movimento seja apropriado pela extrema direita - isto me dá náuseas. A mídia oposicionista tenta tirar vantagens dos movimentos após, num primeiro momento, exigir a repressão em cima deles. Por outro lado, é rechaçada pelos participantes do movimento que chamam a Globo, por exemplo, de manipuladora.
Os líderes do MPL estão sendo muito claros ao dizer que são um grupo que deseja um avanço nas conquistas sociais. E só foi possível o movimento porque a luta contra a pobreza e miséria não é mais premente. Querem mais. 

Vivemos numa democracia representativa, elegemos quem nos representa nas tomadas de decisões que afetam a vida de todos. O problema é que alguns eleitos passaram a representar a si próprio, seus próprios interesses e ao de seus financiadores. Tome manifestação nas ruas. Representantes acordem, mudem de atitude. O que não pode é demonizar a estrutura ("Contra tudo que está aí"). Qual alternativa? A cada decisão, a cada lei, a cada projeto consultar diretamente o povo? Como? Via Facebook? Instituir a monarquia ou torcer por um tirano que assuma o poder?

Ser contra todos os partidos, implica em uma nação sem partido. Substituir por quê? Sovietes? Partido único como nas ditaduras comunistas? O idiota que está nas manifestações pedindo a volta da ditadura não entende que se estivéssemos num ditadura a tal manifestação nem mesmo seria possível.
Voltando a questão dos avanços: apesar de eleito para governar com olhar mais amplo ao invés de beneficiar somente aqueles 1% de sempre, o atual governo aos poucos foi dando uma guinada à direita. 
Democracia é mediar conflitos, dialogar, ouvir. Não há como exercê-la sem fazer acordos políticos (a alternativa, mais uma vez, é a ditadura), ceder num ponto para ganhar em outro. O problema é quando se dá ouvido a só um lado: o interesse do grande ruralista vale mais do que o do índio, da floresta ou do pequeno produtor, lucros astronômicos para o rentismo, dar voz a aliados tipo Feliciano que encarnam um retrocesso imenso no que diz respeito às diversidades.

Então o grito das ruas serve para acordar também um governo que foi estabelecido para atender os apelos de todos e que estava se esquecendo de dialogar com os movimentos sociais.
É um "estamos de olho. Atenda os nossos anseios também. Nós também merecemos".
Democracia é participação. Gritar nas ruas é participação. Cabe ao governante ouvir a voz do povo e se orientar por ela.
Direcionar as cobranças a partir de agora é fundamental. A geração que acordou precisa aprender o exercício da democracia na totalidade. O grito de revolta é fundamental para se tirar da apatia, da letargia. Tanto um lado quanto o outro.
Mas, repito, "lutar contra tudo que está aí" é o mesmo que lutar contra nada. Transporte caro e ineficiente é culpa da ganância do empresário - financiador de campanhas - essencialmente. Lucro sim, ganância não. Mas isto não está sendo lembrado.


Bradar contra o mensalão, mas exigir que o principal financiador (não, não existe dinheiro do Banco do Brasil na jogada. Isto é um engodo.), o intocável Daniel Dantas, seja colocado entre os réus. Ele também não é lembrado.
Ou seja, vamos a fundo, desmascarando as reais causas dos problemas. Descobrir que corrupção é de duas mãos, um que dá outra que toma. Não só apontar para o corrompido. E o corruptor? A fonte da corrupção? O auge da hipocrisia neste caso é apontar o PT como origem de toda a corrupção no país. Não, não estou dizendo que pelo fato de todos fazerem caixa 2 o PT também pode. Não é isto. É apontar o dedo só para ele. Só ele ser punido. Acrescentar um P à lista dos puníveis: Preto, Pobre, Puta e Petista. 
Cobrar o uso eficiente do imposto. Priorizá-lo. Ajudar com propostas. Todo governo facilmente se acomoda só atendendo quem estiver cobrando. O grande empresário, o rentista, financiadores de campanha sabem como fazer isto. Eles já têm a grande mídia ao seu lado.

Ao povo cabe o voto para direcionar o projeto macro e as ruas para chamar à correção de rumo. Se tivéssemos uma mídia imparcial e plural, seria mais fácil. Uma luta a ser encampada também é a democratização da mídia. É um poder absoluto acima até da constituição. Paira acima de tudo e de todos. Não pode ser criticada ("é um atentado contra a liberdade de imprensa").
As trevas que sentem saudade do gigante que veste verde oliva e usa coturno e aqueles que querem a volta de um tempo em que pobre não andava de avião, 45% de juros anuais, investimento zero em educação, privatarias e demais, têm uma força muito grande. Detêm um poder econômico e midiático enorme. E não estão se inibindo em usar o atual momento para tentar reverter todos os avanços dos últimos anos.
Nossa democracia é muito jovem, tem apenas 25 anos. De lá para cá tivemos momentos de avanços e recuos. Cabe agora cobrar que se avance mais rápido em direção a uma sociedade mais justa e igualitária. Retroceder jamais.



Texto de Luis Marques

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2 comentários

  1. Interessante o post, eu fiz um em meu blog abordando o mesmo assunto e chegamos a algumas conclusões parecidas. Não adianta sair bradando contra tudo e contra todos sem um objetivo específico em mente: http://ateuedai.wordpress.com/2013/06/19/off-topic-revolta-do-vinagre-o-gigante-acordou/

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  2. Muito bom este post, esta parte me chamou muita atenção - "Acrescentar um P à lista dos puníveis: Preto, Pobre, Puta e Petista". Infelizmente estes são os "ingredientes" que fazem do Brasil um desigual, mas vale lembrar que estes "ingredientes" se refletem na sociedade muito por culpa da grande mídia que segrega estas pessoas!!!!

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