Opinião e Atualidades Ótica Psicológica

AS ENFERMIDADES DA ALMA E A EXISTÊNCIA NA PÓS-MODERNIDADE: um estudo sobre os pecados da atualidade e o lugar dos limites

quinta-feira, junho 06, 2013Roberth Moura


Entende-se o pecado como a possibilidade de escolha do homem. Você deve estar se perguntando “mas como assim?”. Explico. Considerando que cada escolha fundamenta a história, a era moderna com as suas demandas e solicitações constitui-se como escolha. Nesta perspectiva, os pecados da contemporaneidade – ou seja, o pecado no homem – refere-se ao poder escolher. Podemos ilustrar essa angústia da escolha nas figuras dos deuses gregos Apolo e Dionísio.


O modo de ser apolínio caracteriza-se pela organização, dando ênfase ao respeito, aos limites e obediência aos preceitos morais. O modo dionisíaco representa a tendência humana a romper com os limites, com as repressões, valorizando a paixão em detrimento à reflexão, e a avidez em detrimento à solidariedade. Ambos os modos de viver, vivenciados ao extremo, podem trazer sofrimento psíquico ao sujeito. O mundo de hoje, ao mesmo tempo em que exige um indivíduo que esforce para que seja o melhor, também alimenta o hedonismo, o prazer aqui e agora. E frente a inúmeras possibilidades tão extremas e paradoxais de existir na contemporaneidade, o indivíduo acaba por se perder na trama do mundo, causando, assim seu adoecimento psíquico.

A psicologia, em seus primeiros passos, assumiu que o que causava as doenças psíquicas da época era o excesso de recalque, o excesso de aprisionamento dos impulsos. Desta maneira, visando criar mecanismos para evitar a enfermidade da alma, a sociedade tomou um rumo completamente inverso: a liberação desmedida dos impulsos. Contudo, transitar entre os extremos não foi a solução para o problema, como podemos constatar na atualidade, onde nunca foi tão acessível a liberação dos impulsos. E nesse processo de dar vazão aos seus desejos, o homem foi se tornando cada vez mais individualista, enfraquecendo assim, as relações humanas. A busca pelo prazer torna-se, então, uma obrigação e para que o mesmo seja alcançado, vale tudo, sobretudo passar por cima de valores, limites e crenças. Será que este ser solitário, que busca a qualquer preço o prazer, é psiquicamente saudável? O andar da humanidade mostra que não.  Quando o homem torna-se livre demais, e nem há limites ou regras a serem seguidas ele adoece. A nossa cultura desestabiliza emocionalmente o indivíduo pela situação paradoxal que ao mesmo tempo em que estimula o excesso, valoriza a moderação.

Por outro lado, Kierkegaard interpreta os conflitos psíquicos, não como pertencendo à esfera da libertação ou repressão, mas no modo como o homem se relaciona com as vicissitudes que a vida produz. Sendo assim, a psicoterapia de inspiração kierkegaardiana pressupõe que a existência, por si só, é paradoxal. Ela considera a liberdade, a responsabilidade e a culpa existencial como condições a serem mobilizadas e o “eu” como movimento que se constitui na existência paradoxal do ser si mesmo e não ser si mesmo. O quanto eu tenho de mim mesmo, e o quanto sou o que os outros fizeram de mim? Vivo para seu eu mesmo ou vivo os outros?



Psicologicamente falando, tomando o pecado como possibilidade de escolha, os pecados capitais configuram-se em escolher com desmesura, ou seja, escolher ignorando os limites. Os axiomas propostos pelo modelo dialético nos apontam que escolher com desmesura causa sofrimento psíquico. O indivíduo que produz sua existência em um ambiente onde não há limite do que é certo ou errado, do que pode ou não fazer, depara-se, em algum momento da vida com uma situação que estes limites não aprendidos são exigidos.  Para que o indivíduo formule sua síntese é necessário que o que hoje ele acredita ser verdade seja contraposto com uma nova informação. No movimento de contrapor-se a si mesmo, o indivíduo descobre novas maneiras de ser e de existir, transformando suas representações, escolhendo seus caminhos. 



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