Opinião e Atualidades Ótica Psicológica

Inibição Intelectual e psicanálise

sexta-feira, abril 26, 2013Roberth Moura


Na clínica psicológica muitos têm sido os atendimentos de crianças que por algum motivo não tem conseguido aprender. Pode-se afirmar que os casos de fracasso escolar pertinentes ao atendimento psicanalítico referem-se àqueles sujeitos que manifestam uma franca inibição intelectual decorrente de uma desordem neurótica, provocada por conflitos inconscientes. A criança se vê “impedida” de aprender e progredir na escola, sem que possa explicar ou perceber a origem de tal dificuldade, freqüentemente verbalizada como “eu tento, mas não consigo”, “eu não tenho culpa, é muito difícil”, etc. Constata-se que a inibição da função intelectual traduz um mecanismo original de onde provém uma parte significativa dos comportamentos de fracasso escolar.

Pain (1985) mostra como na luta entre a pulsão e a civilização, venceu a civilização. A educação seria então a forma através da qual podemos manter a pulsão em seus trilhos aproveitando sua energia para desenvolver projetos culturais. A sublimação, decorrente da repressão da sexualidade edípica, permite que toda a energia até agora dirigida, primordialmente, para conteúdos sexuais, torne-se dessexualizada e possa ser investida em fins "socialmente aceitos" como a aprendizagem e o conhecimento, enquanto satisfações substitutivas. Vemos as crianças, quando entram na latência, reasseguradas por um superego consolidado, oscilarem entre o cumprimento do desejo ou a observância das interdições. O trabalho mental torna-se possível na medida em que há um lapso temporal entre o desejo e a efetiva descarga de energia. Tal elaboração é assegurada por um ego capaz de pensar, de adiar o cumprimento de um ato e de antecipar as condições em que este ato é possível, capaz também de memorizar, de avaliar o que convém e o que não convém, quanto aos diferentes fatores em jogo.

Na latência toda esta estrutura é agora dirigida a um novo objeto, a aprendizagem da leitura e da escrita. O acesso ao mundo letrado dos adultos é um novo desafio e uma nova paixão e a criança utiliza todas as suas possibilidades nesta nova tarefa usando sua própria metodologia. Se foi capaz de elaborar teorias a respeito dos conteúdos sexuais, porque não o seria agora em relação aos conteúdos da escrita?

Freud (1982) situa a inibição como um modo de defesa do aparelho psíquico. Seguindo seu pensamento, a inibição é uma defesa essencial para que o sujeito possa livrar-se dos excessos de sexualidade que vão gerar desprazer.

Cordié (1996, p. 151) assinala, ainda, que há na inibição um não em que o sujeito revela alguma coisa de sua verdade, “através de um não que é um não de recusa”. Se a inibição se produz como limitação, é uma limitação no ato, e o sujeito inibido é aquele que não pode realizar o ato. O ato não é uma ação, já que, segundo Cordié (1996), a ação está relacionada à vontade, enquanto o ato não; o ato está relacionado ao inconsciente.

Tomando como base essa questão, Freud afirma: “quando a criança não foi demasiadamente intimidada, mais cedo ou mais tarde recorre ao método direto de exigir uma resposta dos pais ou dos que cuidam dela, que representam a seus olhos a fonte de todo o conhecimento; esse método, entretanto falha”. (Freud, 1908, p. 216)


Há três destinos para a investigação sobre a sexualidade. O primeiro é a inibição neurótica. O destino da sexualidade vai ser o mesmo da investigação, e o desejo de saber vai permanecer inibido, limitando a atividade da inteligência. Freud afirma que a curiosidade permanecerá inibida, a liberdade da atividade intelectual será limitada durante o decorrer da vida e a influência da educação vai inibir intensamente o pensamento.

O segundo destino é a compulsão ao saber. A atividade intelectual escapa ao recalcamento, mas permanece condenada a repetir o insucesso da investigação sexual. Qualquer pesquisa pode se perder em ruminações infinitas, acompanhadas do sentimento de que a solução buscada está cada vez mais distante. Freud (1908?) afirma que, após o fim das pesquisas sexuais infantis, as atividades sexuais de pesquisa emergem do inconsciente como atividade pesquisadora compulsiva, de forma distorcida e não-livre, sexualizando o pensamento e colorindo as operações intelectuais. A pesquisa tornar-se-á uma atividade sexual e a satisfação da sexualidade será substituída pela intelectualização e explicação das coisas.
O terceiro caso é a sublimação, em que a libido escapa ao recalque e surge como avidez de saber. Nesse caso, a pulsão sexual que escapou ao recalcamento desliga-se dos complexos originais da pesquisa sexual infantil e a pulsão fica a serviço do interesse intelectual.
Sendo assim, a inibição para aprender se constitui, portanto, como uma limitação que o ego impõe para não despertar a angústia na criança, sendo este dispositivo acionado pelo ego, frente a uma situação de perigo. Nesse sentido, para a criança identificada como objeto do outro (representado pelo discurso, neste caso, familiar), as demandas que dele advém são entendidas como a intenção de domínio direto sobre seu corpo, restrito à satisfação desse outro que desperta o medo de aniquilamento. Para sobreviver, a criança anula seu desejo, “se faz de morta”: a angústia sinalizou o perigo e coloca em funcionamento a inibição.

Família feliz


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Cordié, A. (1996). Os atrasados não existem: psicanálise de crianças com fracasso escolar. Porto Alegre, RS: Artes Médicas.
Freud, S. (1892-1899). Extratos dos documentos dirigidos a Fliess. In Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad.) (Vol. 1, pp. 243-256). Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1976.
PAIN, S. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

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