Contos

Matei minha mãe. E agora?

quinta-feira, fevereiro 07, 2013Roberth Moura




Olá. Meu nome é Marco Aurélio. Tenho 17 anos, estou no último ano do Ensino Médio, me preparando para cursar faculdade de farmácia. No meu tempo livre eu escrevo postagens para meu blog, que eu tenho desde os 14 anos e por isso eu vim hoje aqui desabafar com vocês. Estou com um sentimento de culpa enorme, mas não sei se devo carregá-lo, afinal eu não cometi o assassinato diretamente. Vou contar a história para vocês desde o começo.

Eu e minha mãe vivemos sós, em uma cidadezinha do interior do Mato Grosso, desde que meu pai morreu, quando eu tinha uns 8 anos. Não vou dizer que somos rios ou pobres, porque meu pai deixou uma boa pensão, que dá para viver bem. Desde sua morte, parece que minha mãe ficou muito dependente de mim, querendo tomar conta da minha vida, se ocupar demais comigo. E à medida que ela envelhecia, ia ficando cada vez mais chata, intrometendo seu nariz em tudo, e isso me sufocava. Por mais que eu conversasse com ela, não adiantava: no outro dia, já estava querendo manipular exatamente cada gesto que eu fazia. Muitas vezes eu pegava ela chorando à noite, rezando, com o retrato do meu pai na mão, dizendo à virgem de Guadalupe para leva-la para junto dele.
Eu, é claro, sempre fui um menino muito exemplar, fazia tudo que ela mandava. Eu, melhor que ninguém sabia que ela era uma onça, quando contrariada. Tentava agradá-la em tudo, mas por dentro eu estava corroído de ódio contra aquela velha idiota (que Deus a tenha).

Um belo dia, assistindo a um filme estadunidense, me ocorreu uma maneira de acabar com meu sofrimento e com o da minha mãe também. Então fui logo à ação. Minha mãe tem a pressão muito alta, é bem nervosa e por isso toma remédios para controlar a pressão. Um dia, quando fui à Cuiabá fazer compras, adquiri remédios que ao invés de abaixar, aumentam a pressão. Adquirir esses remédios foi muito mais fácil do que eu imaginava. Existe um movimentado setor no submundo que vende esse tipo de encomendas e coisas muito piores, sem te comprometer nem um pouco. Chegando em casa, quando minha mãe estava na igreja, simplesmente peguei os comprimidos do frasco original e guardei e coloquei os comprimidos que eu havia comprado nele. Eles era idênticos e ela não iria perceber a troca.

Passadas quase duas semanas e nada do resultado. Minha mãe andava um pouco mais ofegante, mas nada que pudesse me dar esperanças. Numa noite de sábado então, resolvi dar uma acelerada no processo. Preparei uma feijoada do jeito que ela gosta (modéstia a parte eu cozinho muito bem), mas no prato dela, sem que ela percebesse, obviamente, coloquei o conteúdo de umas 10 cápsulas de uma vez. Como a feijoada estava bem temperada, ela não iria perceber possíveis alterações no sabor. Foi dito e feito. Na mesma noite o coraçãozinho de pedra da megera não resistiu. Morreu dormindo, como sonham milhões de pessoas.

Todo mundo sabe que ela tinha problema de pressão e a conclusão óbvia é que ela tinha morrido do coração. Como de costume aqui na minha cidade, nem levaram par ao IML para fazer autópsia, além do mais o IML mais próximo era o da capital, há mais de duzentos quilômetros daqui.
Eu amava a minha mãe. Dei alívio para ela. Agora quero saber como dar alívio para a minha consciência.


*Este conto é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

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2 comentários

  1. Ainda bem que só um conto de ficção...Eu já tava pensando aqui em dar um jeito de mandar vc para o xilindró..heheheh
    Mas como conto, tá muito interessante.
    abs.
    Eloy

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    Respostas
    1. kkk Jamais publicaria uma coisa dessas se eu realmente matasse minha mãe (Deus me livre) kkkk

      Fico feliz que tenha gostado. Este foi só o primeiro de muitos...

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