Ótica Psicológica

Análise psicopatológica de Estamira

quinta-feira, dezembro 27, 2012Roberth Moura




 Diferente de outras representações cinematográficas acerca da esquizofrenia, o documentário “Estamira” traz a verdade nua e crua, sem maquiagens e sem a possibilidade de interpretação equivocada do ator. Ali o fenômeno se mostra sem artifícios e por este mesmo motivo a análise torna-se mais precisa, reduzindo a margem de erros.

     Tudo indica que Estamira levou uma vida tipicamente normal até a metade da sua vida, quando o acúmulo de atos atípicos encaminhou-a ao quadro da esquizofrenia. O segundo estupro sofrido, possível fator desencadeante do quadro, é como se fosse a gota d’água para que desacreditasse em Deus e na vida que vivia antes. Seus delírios, frutos do distúrbio nada mais é que a maneira como seu aparelho psíquico encontrou para transportar o insuportável mundo real para um “lugar” inacessível.

            Objetivando correlacionar os sintomas positivos e negativos da esquizofrenia com os sintomas apresentados no filme, percebi a quase ausência dos sintomas negativos. Não identifiquei retração social (ela lidava bem com a família, os amigos, os colegas de trabalho), nem havia nenhum sinal de empobrecimento de linguagem e pensamento, ao contrário, Estamira mostrava-se inteligente e falante, muito produtiva. Não havia também diminuição da fluência verbal, da volição e nem lentificação psicomotora.


Quanto ao distanciamento afetivo é arriscado apenas pelo documentário falar se houve ou não. Ela poderia ser daquele jeito com as pessoas a vida toda e em momento algum alguém relata que depois da esquizofrenia ela tenha ficado menos afetuosa. Há uma cena, com flash em preto e branco e sua voz em off que Estamira diz “Visivelmente, naturalmente se eu me desencarnar eu tenho a impressão que serei muito feliz e talvez eu poderia ajudar alguém. Porque o meu prazer sempre foi esse: ajudar alguém.”. Se por um lado esta fala pode revelar desejos inconscientes de morrer ,“desencarnar”, por outro revela que os outros não são indiferentes para Estamira, que ela possui o desejo de ajudar o próximo. Ela também fala com nostalgia e amor do seu pai “meu pai chamava eu de um tanto de nomezinho (...) ‘merdinha’, ‘neném’, ‘fiinha de papai’”. Faz proposta de casamento para um colega de trabalho. Chora de amor pelo ex-marido e depois o xinga de sujo e porco. Cenas como estas e outras me fazem desacreditar que Estamira tenha se distanciado afetivamente, muito menos chegado ao embotamento afetivo.

O único sintoma negativo descrito por Dalgalarrondo (2008) e perceptível no documentário é a negligência quanto a si mesmo. Neste sintoma percebe-se falta de higiene de interesse pela aparência, etc. Em uma cena, Estamira recolhe restos de um restaurante para preparar macarrão na sua casa. Em todas outras ela está suja e desarrumada. Isso, contudo pode não ser considerado sintoma negativo se observado o contexto sociocultural onde Estamira está inserida: todos que trabalham no lixão colhem restos de comida que acham proveitosos, e todos estão sujos e desarrumados e são dessa maneira não por serem esquizofrênicos, mas por estarem nesta condição sub-humana. Para ter certeza da presença desse sintoma seria preciso colher mais dados sobre o antes e o depois do estabelecimento da doença.

.           Quanto aos sintomas positivos destacam-se:

  Ø  Ideias delirantes: A intensa produção de delírios é perceptível em quase todas as cenas. Muitos de seus delírios, contudo, são muito bem organizados e com certa coerência que seria capaz até de enganar alguns. Eis alguns exemplos “tem revelações e avisa para os inocentes. Inocentes não, esperto ao contrário.”, Ninguém pode viver sem mim. Ninguém pode viver sem Estamira” “todos precisam de Estamira”, “Só eu consigo distinguir as coisas, por sou a Estamira!”(delírio de grandeza), “Meus pais (mortos) estão perto de mim, minha mãe meus amigos... Ó, tô vendo” (delírio associado à alucinação), controle remoto universal e controle remoto dentro do corpo, etc.. Outros delírios são citados pela família, tais como estar sendo seguida por alguém no ônibus ou perseguida pelo FBI (delírios persecutórios).

  Ø  Alucinações e pseudoalucinações: Na cena em que relata que a doutora perguntou se ouvia coisas, ela responde “eu escuto os astros, as coisas”.

  Ø  Produções linguísticas novas como neologismos e parafrasias. Alguns exemplos de falas: “Sabe o que significa cometa? Comandante natural”, “esperto ao contrário”, “trocadilho”, etc.

  Ø  Repetição de ideias (comportamento bizarro): fala do controle remoto natural e artificial em várias cenas; quando xinga o filho que lê a bíblia na sua casa repete o mesmo xingamento várias vezes “vai tomar no cu, vai pro céu, vai pro inferno, vai pra porra”;

  ØDiscurso mítico, reflexo da religiosidade exacerbada antes do desencadeamento da doença.


Em meio a essa presença ou ausência de sintomas devemos nos precaver que estamos analisando uma pessoa, que antes de ser vista como esquizofrênica, deve ser vista e respeitada como ser humano. No relato da família há controvérsias quanto ao tratamento que deve ser dado a mãe ou não, justamente por em muitos destes tratamentos manicomiais a pessoa não receber o respeito que merece.

A filha diz: “Ela (Estamira) não é louca, mas também não é completamente certa (...), mas ela morreria muito mais feliz no meio da rua do que numa clínica.”. Acha “judiação” internar a mãe no modelo tradicional de manicômio, com camisa de força e remédios dopantes. Já o filho não se opõe a quaisquer métodos que tenham que usar para “melhorar” a qualidade de vida da mãe.


Estamira é considerada psicótica com seus delírios e alucinações que não podem ser considerados um discurso vazio. Seu delírio é uma ficção que aponta um movimento psíquico em busca de equilíbrio. Uma tentativa de ordenar o caos. Dar alguma forma ao que está fragmentado e desconexo. Estamira lança seu grito delirante numa tentativa de dar algum sentido a sua tragédia. Ela tem uma verdade pra anunciar que um simples diagnóstico não revela. O delírio é o seu grito. É preciso alguém capaz de escutar.

BIBLIOGRAFIA

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. 438 p.

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2 comentários

  1. Baixar o Documentário - Estamira - "Tudo que é Imaginário Tem, Existe, É " - http://mcaf.ee/tvjf4

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  2. Tenho que fazer um trabalho sobre estamira , e isso com certeza me ajudou mt Parabéns

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