Filosofias e Reflexões

Os ídolos de Bacon: obstáculos à ciência

sexta-feira, fevereiro 10, 2012Roberth Moura

O pensamento filosófico de Bacon representa a tentativa de realizar aquilo que ele mesmo chamou de Instauratio magna (Grande restauração). A realização desse plano compreendia uma série de tratados que, partindo do estado em que se encontrava a ciência da época, acabaria por apresentar um novo método que deveria superar e substituir o de Aristóteles. Esses tratados deveriam apresentar um modo específico de investigação dos fatos, passando, a seguir, para a investigação das leis e retornavam para o mundo dos fatos para nele promover as ações que se revelassem possíveis. Bacon desejava uma reforma completa do conhecimento.


A reforma do conhecimento é justificada em uma crítica à filosofia anterior (especialmente a Escolástica), considerada estéril por não apresentar nenhum resultado prático para a vida do homem. O conhecimento científico, para Bacon, tem por finalidade servir o homem e dar-lhe poder sobre a natureza. A ciência antiga, de origem aristotélica, também é criticada.

Bacon preocupou-se inicialmente com a análise de falsas noções (ídolos) que se revelam responsáveis pelos erros cometidos pela ciência ou pelos homens que dizem fazer ciência. É um dos aspectos mais fascinantes e de interesse permanente na filosofia de Bacon. Esses ídolos foram classificados em quatro grupos:

Você gosta do que vê?
·         Ídolos da Tribo (Idola tribus) – São assim chamados porque inerentes à própria natureza humana "ou à própria tribo ou raça de homens". Por ex., é natural tomar o conhecimento dado pelos sentidos como verdadeiro. Eles não levam em conta que as percepções obtidas mediante os sentidos são parciais, pois dependentes da conformação própria do homem enquanto espécie. São muitos os "ídolos da tribo" e eles levam a uma apreensão do universo de maneira mais simples do que ele é na verdade e, sobretudo, engendraria toda espécie de superstições.


                Segundo Bacon (1984, p. 27), a tendência da natureza humana no sentido de reduzir o complexo ao mais simples implica uma visão que se restringe àquilo que é favorável. Tratar-se-ia de uma espécie de inércia do espírito, cujas generalizações levariam em conta apenas aquilo que é conveniente. Segundo ele, exemplo clássico dessas generalizações seria encontrado na astrologia, na qual as crenças supersticiosas ignoram as predições que falharam, para ficar apenas com aquelas que resultaram conforme o esperado.

ídolos da caverna
·         Ídolos da caverna (idola specus) – Termo que alude à celebre alegoria da República de Platão), são erros provenientes da conformação de cada indivíduo, distinguindo-se, desse modo, dos "ídolos da tribo", que se referem à espécie humana. Cada pessoa possui "sua própria caverna particular, que interpreta e distorce a luz da natureza". A tendência dos indivíduos seria ver todas as coisas sob determinada luz muito particular, à qual estão acostumados.


·         Ídolos do foro (idola fori) – locais de encontro e relações – São erros implicados na ambigüidade das palavras e na comunicação entre os homens. Uma mesma palavra pode ser usada em sentidos diferentes pelos interlocutores de um diálogo; isso puder levar a uma aparente concordância entre as pessoas, quando na verdade ocorre o contrário. Por outro lado, os homens usam palavras, que não são mais do que abstrações, como se fossem nomes de entidades reais. "O homem crê que a razão governa as palavras, mas é certo também que as palavras atuam sobre o intelecto, e é isso que torna a filosofia e as ciências sofísticas e ociosas.
Ídolos do Foro


·         Ídolos do Teatro (idola theatri) – Tem suas causas nos sistemas filosóficos e em regras falseadas de demonstração. A expressão é justificada pelo fato de esses sistemas constituírem puras invenções, como as peças de teatro, que se sucedem na cena e não proporcionam um retrato fiel do universo tal como ele realmente é. Criticando o prestígio dos sistemas filosóficos, Bacon não poupa ninguém. Trata Aristóteles como "o pior dos sofistas". Para Platão, reserva os mais ferinos adjetivos: "este trocista, este poeta pleno de vaidade, este teólogo entusiasta", que teria confundido teologia com filosofia, cometendo o maior dos erros. Critica também os "empíricos incipientes", que conduziriam a experiência como um "prisioneiro em procissão"


BACON, Francis. Novum organum ou Verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza; Nova Atlântida. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

 

FARRINGTON, B.: Francis bacon, Philosopher of Industrial Science. New York: H. Schuman, 1962.



CROWTHER, J. G.: Francis Bacon: Discovery and the Art of Discourse. Cambridge: Cambridge University Press, 1974

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