Cultura

Um assassinato dos anos 60

segunda-feira, novembro 21, 2011Roberth Moura

Extraído integralmente do Diário do Rio Doce -  fevereiro de 1970:


HOMEM SENTIDO

Ele mandou chamar Valtinho em sua casa e foi ao assunto sem qualquer rodeio:
− Quero serviço de um tiro só.
− Ora, Coronel, eu sou um profissional de tradição...
Ali mesmo acertaram preço e prazo.
Ele voltou para casa e lubrificou o revólver, que tinha oito marcas, a exemplo dos bons pistoleiros do velho oeste que a gente vê no cinema.
Ai, se eu te pego...


Três dias depois, estava, cedinho atrás do toco, farnel de farofa ao lado, garrafas de água e gafe e dois maços de cigarros. Sabia dos hábitos do velho Flívio e, por conseqüência, a hora aproximada que ele por ali passaria. À distância, no máximo uns quinze metros, suficiente para que ele, um bom atirador, realizasse a empreitada conforme a encomenda: um tiro só.
Na primeira hora – às 10 – ele não passara.
A fuga seria rápida, bastando dobrar o morro e saltar o córrego, protegido pelo mato cerrado e pelo deserto do lugar. À noite iria prestar a conta de seu “trabalho” e botar a mão nos dois milhões antigos, que ele não era homem de aceitar cruzeiro novo, que parece depreciar as tarefas.
Naquele exato momento – três da tarde – o velho Flívio dava o último aperto na barrigueira do cavalo e, em seguida tomou a estrada poeirenta. Pensava em sua desavença com o Coronel Alfeu que lhe jurara:
            – Você passa a defunto antes da lua cheia...
            Seu rosto tinha uma expressão grave e preocupada.
Ao chegar num lugar alto, dominado pela sombra de uma árvore imensa, parou o cavalo, como que a descansar.
            UM TIRO QUEBROU O SILÊNCIO.
Ele esporeou o cavalo e prosseguiu seu caminho.



Ao chegar a Tarumirim, já à noitinha, notou que pequenos grupos conversavam, aqui e ali, dando a impressão de que algo espetacular acontecera. Desceu do cavalo e entrou na venda:
            – Mataram o Coronel Alfeu!
            –Não diga!
            Ouviu os detalhes Tim-Tim por Tim-Tim, e pôde ainda fazer algumas lamentações:
            – Um santo homem. Quem teria cometido crime tão horrendo?
            Virou a cachaça e seguiu direto para a Casa do Coronel Alfeu.
            Passou ali a noite as emoções do velório, e, no dia seguinte, esperou a tardinha para acompanhar o enterro. Só voltou para casa no outro dia, após renovar seus sentimentos junto à família do falecido, “um homem de grandes virtudes”.



Ao voltar para casa, na outra manhã fez uma parada debaixo da mesma árvore e espiou para o alto da pequena elevação do lado da nascente. Um bando de urubus voava em torno. Fez o sinal da cruz, esporeou o cavalo e seguiu para casa...
SANTOS, Parajara dos. Diário do Rio Doce. Governador Valadares, fevereiro de 1970.

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8 comentários

  1. Viajei no tempo cara! Pôxa, lembrei até do meu avô e das histórias que ele contava pra gente quando ele era vivo... Muito bom o texto. Parabéns pelo site!

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  2. Valeu Daniel! estamos aqui para agradar o leitor...

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  3. ola sou um dos seus amigos no dihitt , vim conhecer seu espaço espero q conheça o meu ha e por favor me segue abçs espero vc lah
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  4. Visitei o seu também. Seguindo...

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  5. Adorei o texto, parabéns .. Vou cursar audiovisual , e esse tipo de historias me encanta ..
    Certamente irei navegar por esse caminha em algum projeto futuramente ..obrigado, Odacyr !

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  6. Obrigado kikomhac! É sempre bom saber que as pessoas gostam daquilo que publicamos. Valeu e boa sorte na sua empreitada!

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  7. nao entendi nada,li 2 vezes. quem matou quem?

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  8. Ao que parece, o velho Flívio matou o homem que estava à sua espreita e encomendou a morte do Coronel Alfeu. É a prova de que ele foi mais esperto do que seu opositor. É como diz o ditado: jamais ouse ferir uma cobra, pois certamente ela voltará e matará você. Ou mate-a ou deixa-a em paz...

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