Humor

Bordões de velório

sexta-feira, novembro 18, 2011Roberth Moura


Não sei se estou me tornando insensível demais ou se é apenas mais vivido que eu estou ficando.  Não gostaria de pensar assim, mas tudo que é demais enche o saco. Não devia estar nem escrevendo isso, mas aqui também é um espaço para desabafos (quem se sentir ofendido, não leia o restante).


Tinha a vida toda pela frente. Quem garante?
Estava há uns dias atrás em um velório de uma pessoa que era amigo dos meus amigos. Eu nunca o vi, nem tinha nunca ouvido falar sobre ele. E enquanto aguardávamos o corpo chegar várias pessoas aglomeraram-se no nosso grupo e começaram a falar sobre o acidente horrível et cetera e tal. Logo começam os bordões, típicos de encontros como este, tais como: “ele morreu muito novo”, “ainda tinha a vida toda pela frente”, “tem muitos bandidos e pessoas ruim que não morrem, e um menino tão bom quanto esse foi morrer. “coitado, nem teve tempo de conhecer a vida”, “eu não acredito. Estive com ele hoje de manhã e ele estava tão bem!”(como se com um segundo a pessoa não fosse capaz de morrer) e por aí cortam-se as madrugadas a lamentar as mesmas coisas de sempre.

            Isso quando não é velório de pessoas de idade mais avançada. Alguns anos antes do meu avô morrer meu tio disse, em tom de escárnio que não sabia o que ele estava fazendo vivo ainda, só pode que ele estava fazendo hora extra aqui na Terra. Claro que isso não é coisa que se diga pra ninguém, não preciso nem dizer aqui, mas existem pessoas que às vezes eu também me pergunto o que elas estão fazendo aqui...

             Mas voltando ao velório de pessoas idosas, os bordões que se ouve em quase todos perpassam por estes: “estava sofrendo demais, né? Foi até bom que descansou”, ou “ontem de noite essa véia tava forte, menino, fiquei até tarde contando caso com ela aqui. Aí amanheceu morta” e ainda “agora que ele descansou, está com Deus”. A única coisa que eu posso dizer pra essa última frase é “ou não necessariamente”.

            E quando tem, em um velório aquela pessoa que estava perto e viu tudo? Cada um que chega parece que ela acrescenta um novo detalhe. Com duas ou três vezes que ela conta, já virou profissional: torna-se o relator oficial do fato morbígero e faz as tonalidades de voz dos personagens que faziam parte da cena, faz caras e bocas, utiliza centenas de onomatopéias, encena pra lá, encena pra cá e BOOM! Morreu a pessoa e ele viu tudo.

Deixa eu falar! Eu vi tudo!


            Não sei nem mais o que falar disso. Há mais dois anos eu não vou em velório, e quando eu decido ir em um pra dar uma força o roteiro parece ser o mesmo. Mas também, né, pra quê reclamar? A inspiração pra história é e sempre será a mesma e o jeito é ir junto, balançar a cabeça e, independente de que esteja no caixão, dizer: “Ele era um santo quando em vida; um amor de pessoa. E agora está com Deus. Mas não se preocupa não, sua hora também está chegando, e em breve você vai passar por este mesmo processo que ele está passando agora e rapidinho vai encontrar com ele. Esquenta não. É questão de tempo.” Aí a pessoa vai parar de chorar e ficar consolada por toda eternidade.


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A morte: Reflexões que a morte nos obriga a fazer. Sempre que uma pessoa morre somos tomados por um turbilhão de pensamentos e revemos a prática de nossa vida e nos perguntamos “se eu morresse hoje, morreria feliz?”

A camada de verniz: Você é o que você aparenta ser? Não tem medo de uma hora ou outra sua fera interior se libertar e ficar totalmente fora de controle? Leia nessa divertida abordagem um diálogo a respeito da camada de verniz que a sociedade nos obriga a passar, todos os dias.

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15 comentários

  1. Talvez você tenha pesado isso pois era o enterro de um "amigo do amigo". vamos ver se você mantém esse ponto de vista quando seu pai ou sua mãe morrerem. (espero que nesse dia alguém chegue e diga "ainda bem que morreram..." ao invés de mostrarem seus pêsames)

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  2. Infelizmente eu ri..kkkkkkkkkkk pior q o povo fala essas coisas msm, qdo meu amigo um amigão msm de 19 anos morreu falaram:Porra ele nem viveu nada..kkkkkk fatalidade né..esfaqueado

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  3. Acho que sou uma das poucas pessoas nesse mundo que trata a morte como algo necessário e natural. Pense, se não existisse a morte como estaria o mundo hoje ? não que eu seja uma louca e vá matar todo mundo que eu ver pela frente '-'. Digo isso porque a maioria das pessoas ficam depressivas,ficam inconformadas com a morte de pessoas próximas ou com pessoas desconhecidas que não tenham vivido muito, ou morrido de forma trágica. Eu nem curto velórios e afins, acho desnecessário ir. Só vou porque as vezes morre alguém da família e fica tenso eu não ir..vão me chamar de insensível ou algo do tipo :/ ahuehuahuaehu

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  4. 1º anônimo: eu disse que quem se sentisse ofendido, não lesse o restante. O questão não está em mostrar os pêsames ou não, mas sim na maneira repetida e clichê em que os mesmos são exteriorizados.

    2º anônimo, este é o espitrito da coisa.Observar nossos comportamentos frente aos devaneios da vida.

    e Cah, esta é a morte e estas são as pessoas... não podemos mudá-las, muito menos dizendo-as que a morte é sim necessária e inevitável, apesar de ser.

    Obrigado a todos pela participação. Opiniões de todos são sempre bem vindas.

    Coah

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  5. Concordo plenamente com o post. Chega a ser engraçada a quantidade de bordões XD. Mas a questão principal não é que você está insensível ou algo do gênero, mas é que você nem conhecia a pessoa, não tem como ter sentimentos profundos por alguém que você não conhece; quando a vizinha da minha ex morreu todo mundo ficou mal e talz e eu não senti nada simplesmente por que não a conhecia. É bastante normal se sentir assim.

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  6. Bom eu penso o seguinte sentimento cada um sabe do seu agora se eu nao conheço se amigo de amigo o sei la o que for eu nem vou.para isso existe uma palavrinha chamada respeito.

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  7. Não teria dito melhor. Chega a ser tragicômico como as pessoas acham que precisam dizer alguma coisa até nos momentos de luto e dizer alguma bobagem como "ele morreu muito cedo" ou "foi bom porque parou de sofrer" pode ajudar em alguma coisa. Diga de como não se mostrar indiferente sem ser inconveniente em um velório: ao se dirigir aos familiares do falecido, basta dizer "meus pêsames " ou "minhas condolências". Só isso basta. Alexandre

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  8. Também acho essas frases meio estranhas e repetitivas, mas como vc indicaria que nós devíamos dar os pêsames aos parentes e amigos do morto???

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  9. Any, como o Alexandre disse, bastaria demonstrar seus sentimentos à família do morto, dizendo "meus pêsames" ou "meus sentimentos", que é a mesma coisa. Se você realmente gostava do falecido a família entenderá, e não precisará ficar repetindo as mesmas coisas óbvias de sempre por que isso não vai confortá-los. Diga-os o quanto ele era especial pra você, mas sem se alongar, por que corre o risco de ser inconveniente demais.

    Até!

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  10. "Poisé né pra morrer basta estar vivo!" clássica

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  11. "Pra morrer basta estar vivo"

    KKK Esta é o ápice.

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  12. que post mais sem graça... e qual a finalidade? Ser engraçado? ironico? informativo? às vezes tem coisas que ninguém deveria falar... nao fiquei ofendida pelo post, apenas chateada por algumas pessoas pensarem dessa maneira.. é triste, neh? e nao é vivência demais não, é falta de sensibilidade mesmo.. ou tempo de sobra pra pensar em coisas assim... e tempo de sobra pra ir no velório de uma pessoa que nem conhece e sair de lá falando sobre... e escrevendo sobre!! é uma falta de respeito tremenda, não?

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  13. Não é falta de respeito não. É falta de saber expressar sentimentos dizendo sempre as mesmas palavras vazias, onde todo mundo diz a mesma coisa. Que significado teria isso? Isso sim é triste...

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  14. Achamos estranhos, repetitivos e clichês até q isso acontece c um ente querido e próximo. Temos atitudes e pensamentos q nunca imaginamos q pudéssemos ter, mas q nos tomam naquele momento sofrido. Então, até aquela fala sem graça, repetitiva e clichê nos traz alívio e conforto, como se fosse pessoal e intransferível. Entendi seu ponto de vista, mas penso q só sabemos como vamos agir em relação a algo qdo aquilo acontecer conosco.

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